São Bento 03

Seita judaica ultraortodoxa é acusada de sequestrar crianças nos EUA

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Membros do Lev Tahor em San Juan La Laguna, em imagem de agosto de 2014. (REUTERS/Jorge Dan Lopez)

Quando dois adolescentes sequestrados nos EUA foram encontrados com membros da comunidade judaica ultraortodoxa Lev Tahor, muitos olhares se voltaram para a seita, até então pouco conhecida fora de Israel e da Guatemala, onde seus membros estão atualmente sediados.

Recentemente, quatro membros da seita foram presos e acusados de sequestro de menores perante um tribunal de Nova York.

Os quatro foram encontrados em um povoado do México com Chaim Teller, de 12 anos, e sua irmã Yante Teller, de 14 anos, que haviam desaparecido da cidade de Woodrige, em Nova York, em 8 de dezembro.

Segundo a denúncia, os acusados sequestraram as duas crianças para levá-las de volta ao acampamento da Lev Tahor na Guatemala. Chaim e Yante tinham deixado a seita havia pouco mais de um mês acompanhados de sua mãe, que denunciava o “extremismo” da comunidade.

Entre os acusados de sequestro está Nachman Helbrans, líder do grupo e tio das crianças.

Em Israel, onde foi criada, a Lev Tahor também é cercada por polêmicas há muitos anos.

Parte da imprensa do país chegou a chamá-los de “talebãs judaicos”. No entanto, até os críticos consideram desapropriado esse tipo de rótulo.

“Lev Tahor é um grupo devoto, inclusive excessivamente devoto, de judeus”, escreveu em 2014 Elon Gilad, um colaborador do jornal israelense Haaretz. “O Talebã está associado ao uso da violência extrema e da destruição para impor seu ponto de vista às pessoas sob seu controle (no Afeganistão). A única razão para a imprensa israelense batizar o Leva Tahor de ‘talebãs judaicos’ é porque as mulheres da seita usam uma roupa negra da cabeça aos pés, que se parece com as burcas que o Talebã obriga as mulheres a usar.”

Ultraortodoxos e anti-sionistas

A Lev Tahor, que em hebraico significa “coração puro”, foi fundada em Jerusalém na década de 1980 pelo rabino Shlomo Helbrans.

Estima-se que hoje tenha entre 250 e 500 membros. O grupo pratica muitos dos costumes do chassidismo, uma corrente ultraortodoxa e mística do judaísmo, mas é mais rígido em sua aplicação.

As mulheres da Lev Tahor usam uma roupa negra dos pés à cabeça, com apenas o rosto visível. Os homens usam negro, cobrem a cabeça com um chapéu e nunca fazem a barba.

A alimentação da comunidadade segue as leis Cashrut, conjunto de normas bíblicas que estabelecem quais são os alimentos aptos (kósher) que os praticantes do judaísmo podem comer. No entanto, o grupo também segue uma versão mais rígida dessas leis.

A maior parte de sua alimentação é feita em casa, com uso de ingrediente naturais e não processados. Eles não comem frango nem ovos de galinha, por considerarem que são alimentos manipulados geneticamente. Mas comem gansos e seus ovos.

Também não comem arroz, cebolas ou verduras folhosas. Antes de comerem legumes e frutas, sempre tiram a casca.

Somente bebem leite de vacas ordenhadas por eles mesmos e fazem seu próprio vinho.

Sua relação com a tecnologia também é bastante limitada: evitam o uso de aparelhos eletronônicos, como televisão, celular e computador.

São contrários ao sionismo, por receio de que a fé judaica seja substituída pelo nacionalismo secular no Estado de Israel.

Apesar de seu modo de vida rígido, os membros da seita consideram que operam plenamente dentro das fronteiras da tradição e das normas religiosas judaicas. E que não há nada de novo ou diferente no que fazem.

“Eles se veem como os únicos que estão seguindo o verdadeiro caminho, como os defensores da última chama do mundo judaico”, escreveu Shay Fogelman, um jornalista do Haaretz que em 2012 teve a rara oportunidade de passar cinco dias convivendo com os membros da comunidade Lev Tahor. “Eles sentem desprezo por outros ramos do chassidismo, que consideram muito permissivos e degenerados.”

“Os membros devem venerar e servir a Deus em todo momento. Suas bibliotecas só têm livros judaicos. Em suas casas não há televisão, rádio ou computador. Conceitos como tempo livre, ampliar os próprios horizontes ou buscar o desenvolvimento pessoal, em seu sentido ocidental, não existem na comunidade”, descreveu Fogelman.

“As paredes das casas não têm nenhuma decoração; não há fotos, amuletos, fotografias de rabinos. Na maior parte das casas os únicos enfeites são candelabros, menorás e objetos religiosos de prata, todos guardados em caixas de vidro.”

Controvérsias e expulsões

Nos últimos anos surgiram várias acusações contra a Lev Tahor de uso de formas extremas e violentas de controle sobre os membros, incluindo o uso de castigos corporais em crianças e matrimônio forçado de meninas menores de idade com homens mais velhos.

As denúncias foram feitas por ex-membros do grupo e seus familiares.

Em 1990, o rabino Shlomo Helbrans transferiu o grupo para os Estados Unidos, onde criou uma escola judaica na região nova-iorquina do Brooklyn.

Em 1993, Helbrans foi preso em Nova York acusado de sequestrar um adolescente que estudava na escola para preparar-se para seu bar mitzva, importante ritual religioso do judaismo.

Os pais do jovem acusaram o rabino de tentar tentar fazer uma “lavagem cerebral” em seu filho, enquanto o rabino acusou os pais de terem um comportamento abusivo com a criança.

A Justiça americana acabou condenando Helbrans por sequestro, e ele passou três anos na prisão até conseguir a liberdade condicional, em 1996.

Quatro anos depois, ele foi deportado a Israel, onde não ficou muito tempo: decidiu levar sua comunidade para o Quebec, no Canadá.

No entanto, ali também surgiram denúncias contra o grupo, que foi acusado de negligência infantil em 2013 pelo serviço social.

As autoridades canadenses estavam preocupadas com a saúde, a higiene e a educação das crianças, que, segundo a imprensa reportou à época, não estavam recebendo os cuidados necessários.

Pouco depois, os membros da seita abandonaram o Canadá e foram para San Juan La Laguna, na Guatemala, cidade habitada principalmente por indígenas maias.

Também lá não foram bem acolhidos. Depois de vários meses de desentendimentos, o conselho de anciãos de San Juan decidiu expulsar o grupo por considerar que seus membros desrespeitavam a população local.

Para forçar sua saída, as autoridades locais ameaçaram cortar seu acesso aos serviços públicos.

A comunidade então se mudou para a Cidade da Guatemala, onde foi visitada por fiscais do Ministério Público, que investigavam se havia casos de maus-tratos à crianças.

Em 2016, o grupo trocou novamente de cidade e foi para El Amatillo, no município de Oratorio, a 80 km da capital.

Um ano mais tarde, em 2017, a imprensa israelense publicou informações sobre a morte de Helbrans, que teria acontecido enquanto ele realizava um ritual religioso em Chiapas, no México. A imprensa também publicou sobre supostos planos do grupo para se mudar de cidade novamente.

Com o falecimento do fundador e as acusações de sequestro contra o novo líder, não se sabe qual serão os próximos passos da Lev Tahor.

Sobre o caso de Chaim e Yante, as duas crianças sequestradas em dezembro, os registros do caso na Justiça de Nova York reproduzidos pela imprensa ameriana apontam que a mãe deles, Sara Helbrans (que também é filha do fundador Shlomo), havia abandonado a seita depois de fazer críticas a ela. E disse estar “muito temerosa do culto e do que seus membros podem fazer conosco, agora que não estamos sob seu poder e sua manipulação”.(BBC)

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