Polícia apura se morte de jornalista na fronteira tem relação com reportagens

Lourenço Veras, o Leo, foi executado com 12 tiros de armas automáticas na noite de quarta-feira em Pedro Juan

 

DA REDAÇÃO

 

O jornalista brasiguaio Lourenço Veras, o Leo, morto por pistoleiros em sua casa, no Paraguai.Foto: Reprodução

A Polícia Nacional do Paraguai suspeita de ligação da execução do jornalista Lourenço Veras, o Leo, a reportagens publicadas por ele nos últimos tempos retratando as ações do crime organizado na fronteira seca entre Pedro Juan Caballero e Ponta Porã. Cidadão brasileiro, mas que também tinha nacionalidade paraguaia, Leo foi morto aos 52 anos de idade na noite de quarta-feira (12) quando jantava com a família em sua casa, no Jardim Aurora, em Pedro Juan Caballero.

Ignacio Rodriguez Villalba, chefe da Polícia Nacional do departamento de Amambay (equivalente a estado), afirmou ontem de manhã ter “muitas informações” sobre os responsáveis pelo assassinato de Leo, praticado por três pistoleiros encapuzados.

Sem revelar detalhes das investigações, Villalba disse que a morte está vinculada a publicações feitas pelo jornalista sobre o crime organizado na Linha Internacional. O policial afirmou também que está “fazendo tudo o que é possível” para esclarecer o crime.

Além das reportagens que publicava em seu site, o Porã News, em língua portuguesa, Leo Veras colaborava com meios de comunicação tanto brasileiros quanto da capital paraguaia, Assunção.

Em janeiro, ele foi entrevistado pelo programa Domingo Espetacular, da TV Record. Em outra entrevista, em 2017, ao programa Tim Lopes, do jornalista Bob Fernandes, Leo Veras falou sobre a violência na região. O programa abordou a execução de outro jornalista da fronteira, Paulo Rocaro.

“Peço que não seja tão violenta a minha morte, que não seja com tantos disparos de fuzil. Se um pistoleiro quer te matar, ele vem na sua porta e quando você abrir, ele vai te dar um disparo. Espero que seja só um disparo, para não estragar tanto”, afirmou Leo, sorrindo, na entrevista a Bob Fernandes.

Na noite de anteontem, três pistoleiros encapuzados invadiram a casa de Leo Veras. O jornalista jantava com a mulher e o sogro. Ele tentou correr, mas foi atingido nas costas e caiu no quintal da casa. Já no chão, levou o “tiro de misericórdia” na cabeça. Leo chegou a ser socorrido a um hospital particular, mas morreu quando era atendido.

O promotor de Justiça Marco Amarilla, responsável pelas investigações sobre a execução, disse que o jornalista estava tenso nos últimos dias e praticamente se despediu da família, temendo ser assassinado.

Amarilla afirmou ter conversado com a mulher de Leo Veras e com o sogro dele logo após a morte. Segundo Amarilla, embora não tenha confirmado ameaças recentes ao marido, ela disse que ele estava preocupado, tenso, e se despediu da família nos últimos dias, como se já soubesse que seria morto. “Uns dias antes estava muito tenso, nervoso, calado, praticamente se despediu da esposa, da família”, afirmou o promotor.

Marco Amarilla disse que o celular e o computador de Leo Veras foram apreendidos, para serem periciados. A intenção é descobrir as supostas ameaças e tentar identificar os autores.

Mais tarde, em entrevista a uma rádio do Paraguai, a mulher de Leo, Cinthia González, disse não ter conhecimento das supostas ameaças ao jornalista. Ela também rebateu declarações do promotor Marco Amarilla de que Leo andava preocupado, tenso, e que teria “praticamente se despedido da família”. “Nunca me disse nada, sempre estava tranquilo, em nenhum momento o senti com medo. Que eu saiba, não recebeu nenhuma ameaça, estava trabalhando normalmente”, afirmou ela.

Entretanto, outro repórter da fronteira, Santiago Benítez, disse que Leo Veras sempre mencionava ameaças. “Ele aprofundava suas investigações jornalísticas e isso incomodava os mafiosos, por isso o mataram. Sempre falava em ameaças, mas na fronteira só se acredita depois que acontece”, disse Santiago Benítez. Ele revelou também que há alguns anos, Leo contava com proteção policial justamente por causa das ameaças, mas que nos últimos tempos o serviço foi desativado, não se sabe por qual motivo.

O corpo de Leo Veras foi enterrado ontem no final da tarde no Cemitério Cristo Rei, em Ponta Porã. Até o fechamento desta edição os assassinos continuavam no anonimato.