São Bento 03

Escritora Maria Galindo lança hoje “A poesia de Maria”

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LUCIANO SERAFIM

DIÁRIO MS

 

“A poesia de Maria”, terceiro livro de Maria Gonçalves, marca uma nova fase na vida e na literatura da escritora pernambucana radicada em Dourados há 27 anos. A obra desvela as múltiplas personalidades femininas, tanto que a partir do seu lançamento a autora passa a assinar como Maria Galindo, em homenagem à sua mãe. A noite de autógrafos será nesta segunda-feira (13), às 19h30, no Kikão Restaurante, em Dourados.

“‘A Poesia de Maria’ é um livro, no qual, em muitos poemas, eu ‘canto’ o meu quintal. É uma imersão nas minhas raízes. Nele eu trago a seca, o deserto, os cactos — a vida de quem vive aquele locus. O sertão está ali posto, como uma parte de mim, como se fosse minha alma. Há também poemas de resistência, que são aqueles que gritam a injustiça. E claro, há poemas de amor. Eu acredito que a maior fonte de inspiração desse livro foi a minha terra e a força da mulher nordestina. Claro deve haver ‘pegadas’ dos poetas que habitam em mim”, explica Maria.

Ela nasceu em Taquaritinga do Norte, sertão de Pernambuco. Mora em Dourados desde o ano de 1992. Aqui terminou o Ensino Médio, na escola CEEJA (Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos), e graduou-se em Letras pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). Posteriormente, fez mestrado e doutorado, na área de Literatura, na UFMS/Três Lagoas e na Unesp (Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”) campus de São José do Rio Preto, estado de São Paulo.

Maria conta que seu interesse por leitura é resultado das histórias orais, que ouvia na infância:“Histórias de assombração, contadas pelos mais velhos. Eu adoro histórias. E eu mesma, era uma pequena contadora de histórias – reunia um grupinho de amigas na escola, na hora do recreio, e começava contar histórias, inventadas por mim e de improviso. Tinha um público bom. Também era uma frequentadora assídua da biblioteca da escola. Li tudo de Monteiro Lobato, li a coleção das ‘Mil e Uma Noites’. Enfim, devorava tudo que passava pela minha frente, de fotonovelas a romances ‘água com açúcar’, tipo ‘Sabrina’, ‘Julia’, ‘Bianca’, etc. No primeiro ano do Ensino Médio, professor Cícero, de Língua Portuguesa, gostava de ler poemas para a classe e incentivava bastante a escrita. Eu gostava muito de suas aulas e sempre tirava boas notas em redação. Mas a leitura e a literatura já estavam entranhadas em mim”.

Ela revela que começou a se descobrir escritora no começo da adolescência: “Com uns 12 ou 13 anos eu comecei a criar histórias, em quadrinhos. Minha prima desenhava muito bem. Eu dizia para ela o que devia desenhar e ia escrevendo a história, nos balõezinhos. Fazíamos cadernos lindos. Era uma brincadeira. Ao mesmo tempo, eu já percebia e sentia que algumas coisas, no Mundo, não eram justas ou certas. A aspereza desse Mundo me despertava sentimentos confusos, me angustiava. Mas eu era apenas uma menina, não tinha com quem falar, então escrevia. E foi assim que comecei a escrever meus primeiros poemas. Uma forma de colocar pra fora o que eu sentia — uma forma de dizer e até de gritar — ou seja, naquela altura da minha vida, eu já sabia que ‘quem cala consente a fala e o grito do capitão’. Eu não queria calar, como tantas mulheres que até hoje eu não sei o que pensavam, o que sentiam. Só as via lutar para criar os filhos, para contornar a falta de água. Eram aquelas mulheres que batiam a roupa no lajedo, pegando água nas cacimbas ou carregando a lata de água na cabeça para levar pro filho beber. Elas, talvez, não tivessem tempo para colocar em xeque essa vida. A mulher que vive a seca — ela só pensa em água — e isso não é pouco. A água é mulher e a mulher é água! Eu não podia me conformar. O meu corpo e minha alma doíam e eu só podia expurgar a dor, escrevendo. Era isso, ou a morte. Pode acreditar. Não sei se me descobri escritora, mas sei que descobri uma forma de sobreviver às dores da vida”.

Nessa trajetória de muitas leituras e escritas, ela guarda um lugar especial na estante e na alma: “Sou fã de muitos autores, muitos mesmo. Mas vou citar aqui alguns poetas, tais como Ana Cristina Cesar, Sylvia Plath, Hilda Hilst, Drummond, João Cabral, Rimbaud, Vinicius de Moraes, Charles Bukowski, Mia Couto, Manoel de Barros, Elomar Figueira, Bandeira, entre tantos outros, dos quais sou fã e, certamente, dialogo de forma intencional, ou não. Porque você sabe, terminamos ‘influenciados’ por nossos ‘pais’ e, é procurando negar essa influência que ela mais aparece. Quem ler o livro pode encontrar algum ‘rasto dos citados’, ou não. Como também, pode encontrar ‘passos’ de outros que não foram citados aqui”.

Outra influência importante para ela é a música, e nesse caso, a obra de Renato Teixeira tem destaque especial. “Pra mim, o Renato tem o dom de cantar as almas brasileiras, no plural mesmo, pois de todos os lugares onde vive ou por onde passa, ele absorve o essencial e entrega ao público em forma de canções”, ressalta Maria.

 

LIVROS ANTERIORES

Maria Galindo publicou seu primeiro livro, “Cor-de-rosa e Carmim”, em 2002. “É um livro de poemas, divido em duas partes: poemas de amor e de dor e a dor de não ser. A primeira parte é composta por poemas de amor e a segunda por poemas ‘denúncia’, ou poemas de resistência, não sei bem como classificar”, analisa.

O segundo livro, “O Sagrado Feminino”, foi publicado em 2013. “A maioria dos poemas foram compostos para uma parceria com uma amiga, Ângela Felipe, artista plástica. Ela viu alguns poemas meus e fez uma pintura, inspirada em um deles. A partir daí, começamos a parceria. Ela pintava e eu fazia um poema a partir da obra, ou ao contrário, ela pintava a partir de um poema meu. Fizemos uma exposição linda em Natal e foi um sucesso. Depois publiquei o livro com o mesmo nome que usamos para a amostra. ‘O Sagrado Feminino’ é tudo o que é sagrado para nós mulheres”, finaliza.

 

SERVIÇO

Lançamento de “A poesia de Maria”, nesta segunda-feira (13), às 19h30, no Kikão Restaurante, a cuja direção a autora agradece pela parceria.

O livro também poderá ser adquirido no site da editora Gana (www.coletivoeditorial.com.br).

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