Diário MS
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“Uma Noite de Crime: Anarquia” é crítica mordaz ao american way of life

Albano Pimenta

De férias, na casa dos meus pais, continuei a minha descoberta sobre o acervo do NETFLIX. Desta vez foi uma indicação da minha tia, que disse para minha mãe que meu pai iria curtir aquele “ótimo” filme de ação, já que ele sempre dorme nos filmes menos agitados. Decidi ceder para ter uma sessão familiar.

Depois de uma varredura pela página encontramos o “ditocujo” intitulado “Uma Noite de Crime: Anarquia”, de 2014. Na capa um sujeito com o rosto pintado ao estilo Marilyn Manson. Imagine minha cara revira os olhos de tédio (tipo aqueles memes populares do Facebook), mas se for pelo bem da reunião familiar e da satisfação de ver meu pai acordado até o último ato, OK.

“Uma Noite de Crime: Anarquia” é um filme simples em sua estrutura, como a maioria dos filmes de ação e suspense, mas apresenta uma premissa interessante, onde num futuro próximo, o governo norte-americano aprova uma lei em que libera, por uma única noite do ano, assassinatos sem consequências jurídicas. Dentro dessa ideia, a história é desenvolvida pelo ponto de vista de três núcleos (5 personagens) sendo eles: o da mãe pobre e negra que precisa preservar a vida da filha (Carmen Ejogo e Zöe Soul); o de um casal classe-média a beira do divorcio e que se vê preso nesta noite de terror (Kiele Sanchez e Zach Gilford); e o de um solitário ex-policial que sai armado até os dentes em busca de vingança (Frank Grillo).

Tudo na estrutura do roteiro acontece de forma previsível dando espaço para o famoso clichê. Como o momento em que tudo dá errado para a mocinha e ela se vê cercada por algozes e quem surge para salva-la? Também tem aquele típico personagem que a gente sabe desde o início que ele vai morrer e ter seu momento de redenção. Tem sustos do tipo: o personagem está espreitando uma ação logo à frente, do outro lado do muro. Ele se abaixa e diz que está tudo bem. Quando levanta Bouw! Dá de cara com uma careta pra assustar o espectador. O gênero acaba sendo seu próprio ponto fraco e muitos diretores se rendem aos clichês e isso fica claro vendo a estrutura escolhida por James DeMonaco para seu filme, mas…

Um filme que carrega uma ideia interessante também acaba rendendo cenas interessantes. Destaque para a cena que permite a aparição de um revolucionário que acaba dando dicas da real intenção do governo entorno desta lei bizarra. Também tem uma cena interessante de um idoso que se vende como mártir para uma família rica praticar a sua noite da purgação (é assim que eles denominam no filme). A cena do leilão de capturados vendidos por grupos que atuam nesta noite, apenas para proporcionar o prazer violento aos ricos e poderosos que não têm coragem de se arriscar e tem dinheiro suficiente para comprar uma presa fácil. É neste campo que o espectador começa a refletir sobre a intencionalidade do autor dentro desta obra de ficção.

O filme nos conduz a ver, em seu subtexto, uma crítica ao estilo americano (americanwaylife). Uma sociedade que prega oportunidades para todos, mas que acaba beneficiando sempre o individuo que tem mais recursos, seja financeiro, intelectual, físico enfim. Alguns exemplos no filme são apresentados quando o idoso se vê um fardo para sua família, pois está doente, sem dinheiro para remédios, tornando-se uma presa fácil, ele prefere vender sua vida para ajudar sua família financeiramente, ao invés de resistir e lutar naquela noite. Esse contraste também é visualmente evidenciado quando é mostrado um típico bairro americano onde há residências de famílias classe média com suas câmeras e sistemas de segurança, garantindo o sono tranquilo da vizinhança, diferente dos condomínios da periferia onde se ouve sons de tiros e os prédios são invadidos naquela noite de terror por bandidos e por organizações governamentais. Este ponto me fez lembrar algumas medidas do novo presidente dos EUA, Donald Trump, que já especula tirar os benefícios e recursos de saúde pública para retomar o sistema de prestação de serviço privado, ou seja, os menos favorecidos são praticamente abandonados pelo Estado que acaba contribuindo para uma “limpeza” da sociedade preservando os “mais fortes”.

Outro ponto que atraiu a minha atenção foi a questão bélica. Um Estado que oferece o direito a uso de armas de calibres generosos e que estimula a venda em lojas, fica claro que armas de fogo fazem parte da cultura Norte-Americana e talvez, muitos anseiam por uma brecha na lei que dê o direito ao indivíduo de apertar o gatilho quando quiser, pelo prazer de sentir, parafraseando o Tenente-coronel Bill Kilgore, interpretado por Robert Duvall no clássico “Apocalypse Now” de Francis Ford Coppola, “… o cheiro de Napalm pela manhã”.

 

Notas: – Este filme é uma sequencia de mesmo título (“The Purge” – em inglês) estrelado por Mary Sandin e Ethan Hawke, em 2013.

– Ver o ator Frank Grillo em seu personagem neste filme me fez pensar: Por que ele não foi escolhido para viver Frank Castle – O Justiceiro na série O Demolidor da NETFLIX?

– No final do filme, meu pai não cochilou e achou legal. Um filme para divertir e para pensar.

 

ALBANO PIMENTA é graduado em Comunicação Social pelo Centro Universitário de Adamantina – UNIFAI e pós-graduado em Semiótica pela Universidade do Oeste Paulista. Trabalha como coordenador na Divisão de Audiovisual da UFGD. Dirigiu em 2016 curta-metragem “Conexões perdidas”.