Diário MS
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Quem ama não explora

Maria de Fátima Fernandes Maranhão (*)

Fui criada por uma família que via como principal defeito no outro, o de ser mesquinho ou, como popularmente se diz “mão-de-vaca”. Faço essa afirmação em retrospectiva: relendo o passado com o benefício do decurso do tempo. Nos tempos de minha infância, não havia distinção de classe tão marcante quanto a que se observa hoje. Os pais de classe média alta não vestiam seus filhos como príncipes ou princesas e, ainda que houvesse uma distância social vivida pelas famílias, vivíamos numa igualdade desigual, em relativo equilíbrio de felicidades. Não havia supercomputadores, tablets, ou smart phones. O mundo estava menos mercantilizado e não havia esta obrigação de agregar valor aos filhos como se sua única vocação fosse a de servir de mão-de-obra qualificada para o mercado. Em um tal contexto, os “mãos-de-vaca” ficavam imperceptíveis. Sua falta de ambição ou de distribuição de benesses aos filhos da riqueza passavam despercebidas. Por outro lado, a amizade, como valor contraposto à mesquinhez, era, então, um vínculo tão forte entre as famílias, que os pais deixavam como herança para os filhos.

Segundo o “Aurélio”, “mão-de-vaca” é quem tira  partido ou proveito de fato, situação. É aquele que abusa da bondade ou da ignorância de outro. O termo é utilizado, também, para fazer referência ao avarento, sovina, mão-de-finado, pão-duro. Nos dias atuais, o segundo significado está àquele que frustra os incentivos ao gasto excessivo e à busca de todos os bens que o mercado nos oferece, inevitavelmente, será rotulado “mão-de-vaca”. A primeira acepção, igualmente, caracteriza fenômeno muito próprio de nossos tempos. Nesse sentido, penso que a atual mercantilização das amizades é sintomática. Os mãos-de-vaca conquistaram, definitivamente, as paragens. O rebanho está à solta.

Hoje, a amizade é mais uma moeda de troca do que uma relação de amor desinteressado. As pessoas, de um modo geral, fazem um esforço sobre-humano para estabelecerem uma relação de amizade, já, que a amizade tem preço. : Exemplo, sou mais velha, moro mais tempo na cidade, mantenho relações importantes ou sou também mais estudada, logo você terá que ser subserviente até a morte. Como a regra é beneficiar a si próprio, sempre haverá um ruído nas comunicações.

Esse fenômeno de individualismo e a mercantilização das relações humanas nos levou ao paroxismo. Infelizmente, conheço pessoas que, por serem ricas, ou por viverem entre os ricos, ou serem letrados, tratam a todos como “vassalos” – desde o mais simples funcionário ao amigo mais respeitoso que adentrarem em sua casa.

Quando há discordância, desavença, entre dois seres humanos amigos é porque há um leão no meio deles, que deveria estar morto: O do preconceito que existia entre Maria Madalena e os homens que queriam apedrejá-la e o do egoísmo , que está diretamente ligado à falta de gratidão. Há pessoas que são destituídas do senso de gratidão. É dito por um filósofo, que a gratidão é um saco tão pesado, que nem bem dobramos a esquina, nós o colocamos no chão.

A gratidão é emoção mais perfeita que o ser humano tem, pois compromete o coração e a mente.  Desemboca num impulso de agir e, quando a sufocamos, ou agimos com descaso, ele passa a pesar muito, então, o jeito é coloca-la no chão.

Reconheço um cristão pelo seu senso de gratidão.

O amor não é banal e muito menos descompromissado, deixando a outrem a responsabilidade de decidir por coisas tão banais. Se você arcou com o bônus, terá que arcar com o ônus. Se a sua consciência não cabe no plano A, você terá que ter um plano B para mostrar que tem dignidade.

Por exemplo: Há pessoas que só pagam o trabalho de um profissional liberal após o atendimento ser realizado, perguntando-lhe: Devo-lhe alguma coisa?

Certamente, essa constatação que faço a partir de minha experiência social não é um fenômeno isolado.  Não se trata de buscar igualdade de oportunidades. As pessoas almejam distinção, sonegar o que é do outro, para conseguirem uma posição privilegiada de consumidor que as distinga das outras. Assim, seguimos nos consumindo a nós mesmos.

(*) Formada em Letras.