Diário MS
Get Adobe Flash player

“A Qualquer Custo”: Um indicado ao Oscar 2017 que você ou subestimou ou ainda nem ouviu falar

Albano Pimenta

Divulgação

Dirigido por David Mackenzie, “A Qualquer Custo” é um filme que basicamente conta a história de dois irmãos que vivem no interior do Texas à mercê da falência e decidem iniciar uma empreitada de assaltos a banco para sair desta situação, mas o grande trunfo é a forma como ele é contado e como apresenta seus subtextos.

O filme começa te jogando na ação, apresentando os protagonistas como os bandidos que são em pleno assalto de uma agência bancária daquelas pequenas de interior. É nítido que o método deles é amador, mas eficiente. Em seguida, somos apresentandos ao patrulheiro Marcus Hamilton, vivido por Jeff Bridges, que será o caçador dos dois assaltantes.

Texas, patrulheiro, assaltantes de banco, tudo parece elementos familiares para um filme de faroeste, não é? Pois é. Ele é um filme de faroeste, porém se passa nos dias atuais. Muitos que não gostam do gênero, de imediato, desistem de vê-lo, mas vou tentar justificar por que este filme deve ser visto e, consequentemente, por que ele foi indicado ao Oscar 2017.

O filme trata de forma nada sutil o fato de um país potência mundial ainda ter presentes alguns princípios e elementos culturais do passado, expondo como aquele povo realmente parou no tempo.

Em pleno século XXI, o Texas é apresentado pelo roteirista Taylor Sheridan (“Sicario: Terra de ninguém”, 2015), como um lugar que ainda imprime o ritmo do Velho Oeste, onde as pessoas podem caminhar com uma arma no coldre e revidar a qualquer momento em caso de ameaças. Outro apontamento do roteirista é o comportam daquela população. A maioria dos personagens representa pessoas simples, mas de tratamento duro e muitas vezes até rude. Os irmãos são desenvolvidos da mesma forma, mas como amigos próximos, mesmo evidenciando as diferenças de personalidade. Tobby Howard, vivido por Chris Pine (“Star Trek: Sem fronteiras”, 2016) é o sujeito mais cabeça e centrado, o oposto de Tanner Howard, vivido pelo subestimado Ben Foster (“Os Indomáveis” de 2007), que é impulsivo e violento. Os momentos mais afetivos entre os irmãos são transcritos para a tela por meio de brincadeiras corporais, como crianças brincando de luta, já que está é a única demonstração de afeto aceita no repertório deles, a afirmação deste comportamento machista, também está presente na cena em que Tanner solta um leve insulto após dizer que ama seu irmão, quebrando o clima sentimental da cena de forma proposital.

Neste filme não há definições maniqueístas ou unilaterais de caráter para seus personagens. Os bandidos e mocinhos partilham dos mesmos elementos de personalidade. É só analisar o comportamento do patrulheiro Marcus que sempre trata seu parceiro (meio indígena, meio mexicano) com piadas preconceituosas e pejorativas, mas que de alguma forma, os dois constroem, do jeito deles, certa amizade tolerante que parece perdurar ao longo do tempo.

Quanto à fotografia, o diretor fotográfico Giles Nuttgens tem como missão construir todo o clima western do filme, por isso ele não economiza nos planos abertos, aqueles que apresentam paisagens ou cenas onde aparece mais do que o personagem principal. Esta é uma característica visual predominante e imprescindível do gênero.

Outro ponto interessante que a fotografia traz é a preocupação de explorar os diálogos entre os irmãos. Na maioria das cenas, o diretor de fotografia Giles Nuttgens se preocupa em apresentar os dois em um plano-conjunto, ou seja, no mesmo quadro da cena. Acredito que esta preocupação vem para evidenciar a conexão entre os dois personagens, que mesmo com suas diferenças de personalidade, buscam um objetivo comum, logo apresentar os dois desta forma contribui para na construção narrativa, evidenciando a conexão entre eles e construindo uma empatia pelos personagens. Isso também acontece de certa forma com os patrulheiros, mas gradualmente ao longo do filme.

A paleta de cores exploradas no filme é, na maioria das vezes, de cores quentes, predominantemente amarelada, não só para mostrar o clima quente da região, mas também estendendo ao clima psicológico dos personagens, que se mostram sempre a ponto de estourar (de raiva). Algumas raras vezes, as cores esfriam, claramente marcando sensações opostas, como em momentos de calmaria, descontração e melancolia.

Além da ação, o filme tem em sua construção elementos que se limita a simples caçada de bandidos que assaltam bancos. O filme acaba tocando em temas como a crise imobiliária enfrentada pelos americanos, o aumento de desemprego no interior que gera descontentamento e migração dos mais jovens para as grandes cidades — no filme tem jovens, mas vemos mais adultos e idosos. Também trabalha a ideia do sonho americano e que para atingi-lo só é possível sujando as mãos e não trabalhar duro na propriedade que pode ser confiscada a qualquer momento pelos bancos, porém quem são os verdadeiros donos naquela terra? O discurso do policial mestiço explica um pouco como isso vem sendo tratado ao longo de 150 anos naquela região.

A cena final deste filme também é um aperitivo àqueles que gostam do gênero (como eu). Nesta cena ocorre um duelo psicológico entre os personagens de Chris Pine e Jeff Bridges. Cena tensa, cheia de provocações e de certa forma, violenta. Um diálogo que soa amigável, mas que na verdade é muito bem calculado entre estes dois inimigos que só estão ali apenas pelo desejo de sobrevivência e vingança.

Um filme que diverte pela sua ação, mas que também trata de temas mais profundos, criando camadas e tornado a experiência cinematográfica mais prazerosa. Uma pena que ele passará despercebido pela premiação, mas dentro da minha particularidade, considero um dos meus três preferidos dentre os indicados ao Oscar 2017.

ALBANO PIMENTA é graduado em Comunicação Social pelo Centro Universitário de Adamantina – UNIFAI e pós-graduado em Semiótica pela Universidade do Oeste Paulista. Trabalha como coordenador na Divisão de Audiovisual da UFGD. Dirigiu em 2016 curta-metragem “Conexões perdidas”.