Diário MS
Get Adobe Flash player

O desafio das empresas e o mundo em que vivemos

Sérgio Luiz do Amaral Moretti (*)

Pode-se identificar uma empresa de negócios operando em basicamente três níveis de ambientes: a) um nível macro, no qual se processam as relações de natureza social e cultural mais ampla e comum a todas as organizações e pessoas; b) um nível mais restrito formado por seu mercado ou seu ramo de atividades e, c) o ambiente interno, a própria organização em si, destacando-se as pessoas e recursos que conferem as competências necessárias para disputar um determinado mercado.

Do ponto de vista das empresas, considerar os impactos de sua atuação sobre um público ampliado possibilita uma visão do conjunto mais precisa. Incluir a comunidade e o ambiente na pauta dos interesses das organizações provoca a compreensão das interações em sua natureza sistêmica; os polos ficam menos isolados e percebe-se o funcionamento recursivo de tal conjunto. Como um mobile, os movimentos se tornam resultado de interações da parte e todo e vice-versa. Por esta razão, bem como pela decisiva posição no sistema descrito, as organizações são particularmente afetadas pelas mudanças nestes ambientes, enquanto origem, simples tráfego, ou destino de atividades de todos os tipos.

As empresas são influenciadas por essas forças – uma espécie de matriz institucional, que funciona como input para a formação de estruturas organizacionais ajustadas ao contexto que se apresenta. O próprio estabelecimento de tais relações mostra a necessidade de que exista um entendimento apurado das tendências explícitas e potenciais nesses ambientes, como também uma comunicação constante entre seus diversos sujeitos.  Organizações precisam dos indivíduos e estes das organizações. Sociedade e empresas se completam e se dinamizam em uma troca periodicamente ajustada, processo que demanda, portanto, um permanente diálogo, necessário estabelecer relações entre as partes.

As intensificações das mudanças tecnológicas nas últimas décadas e a globalização dos mercados significaram um impacto profundo, tanto para as organizações, quanto para a sociedade. Para aquelas: maior intensificação da competição e luta pela sobrevivência. Para esta: profundas mudanças nas regras de trabalho e nos hábitos de consumo.

A produção, o deslocamento e a estocagem de bens – que marcou tão decisivamente a sociedade industrial – constituem na atualidade, sem deixar de ser importante, um problema menor na organização econômica. A sociedade toma, de maneira célere, a forma de uma rede, com características marcadamente virtuais. A mobilidade toma conta das nossas comunicações, agora estamos acessíveis e, podemos acessar o que quisermos, em todos os lugares, mostrando os primeiros indícios de uma economia que caminha para um modelo pautado pela fruição e o acesso, ou seja, deslocamento e desfrute, em lugar da imobilização e posse.

Essa questão tem ocupado a pauta das organizações com persistência nos últimos anos, ajudando a lançar mais luz e, algumas vezes, calor no debate sobre as fronteiras das empresas de negócios. A discussão sobre a função das organizações na sociedade é assim trazida à tona, com amplo envolvimento dos históricos setores nela inseridos: governo, sociedade civil e mercado.

Existe hoje um ponto de tensão sobre o modelo de gestão empresarial e de suas relações com a sociedade. Deve-se ter uma visão ampla dessa tensão, pois seu núcleo é simultaneamente: a) consequência de uma convergência de causas que se revelaram durante, pelo menos os últimos trinta anos; b) potencial motor do modelo de sociedade que se escolherá para viver nas próximas décadas.

O principal elemento desse ponto de tensão é o embate entre a orientação que se pretende, doravante, dar à sociedade. Trata-se do choque causado quando se busca dialogar sobre duas visões distintas da sociedade, a econômica e a social, cujo diálogo é prejudicado por serem portadoras de lógicas diferentes: a lógica de mercado, voltada pela acumulação individual e a da comunidade voltada para a solidariedade e compartilhamento.

(*) Professor doutor do mestrado em Hospitalidade da Universidade Anhembi Morumbi.