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Gloria Estefan celebra o Brasil em disco: ‘Nossas raízes são as mesmas’

Imagem: Divulgação
A cantora cubana Gloria Estefan homenageia o Brasil em seu novo álbum de inéditas, o primeiro em sete anos, batizado de Brazil305 (o número é código de área de Miami, onde ela mora). O novo trabalho surgiu depois de Gloria, aos 62 anos, imaginar como suas músicas soariam se fossem compostas no Brasil. “As raízes africanas e culturais do Brasil e de Cuba são as mesmas. Há muita semelhança entre as músicas latinas e a brasileira”, afirmou a cantora em entrevista a VEJA por videoconferência.
Para ela, não há instrumento mais criativo do que a cuíca. “Eu sempre amei a cuíca. Parece que alguém está cantando, quase como um lamento. É muito emocional e diferente. E bem difícil de tocar”, disse. O álbum é aberto com uma batida de bateria que parece ter saído diretamente da Marquês de Sapucaí e segue passeando por diversos ritmos, que além do samba de enredo, passa também pelo samba de roda e o pagode. Há ainda uma versão em espanhol e inglês de O Homem Falou, de Gonzaguinha, que ganhou os títulos de Um Nuevo Mundo e Only Together. 
O álbum foi gravado e produzido em 2019, quando ela visitou o Brasil para gravar um documentário sobre a música do país. Na mesma época, ela também viajou para Salvador, na Bahia, para fazer um documentário sobre a música brasileira. Na capital baiana, ela conheceu Carlinhos Brown, que apresentou a ela o Candeal, bairro onde ele cresceu. Com o músico, ela fez uma regravação de Magalenha, a única faixa do disco onde canta em português. Todas as outras são interpretadas em espanhol e inglês. Ainda na Bahia, Estefan gravou o clipe de Cuando Hay Amor.
Como a música brasileira chegou até você? Pela coleção de discos da minha mãe que tinha Tom Jobim, Sérgio Mendes e João Gilberto. Também ouvi muito Rita Lee, Wilson Simonal e Baby Consuelo. Escutei muito as cantoras Simone e Gal Costa. Muita coisa boa. E, em 1983 gravei o álbum Rio, com músicas brasileiras. 
Tem acompanhado a música brasileira atual? Eu nunca escuto músicas atuais quando estou preparando meu próprio álbum. Somos como esponjas e absorvemos tudo. Eu não sei o que está nas paradas do Brasil. Eu não sei nem o que está nas paradas americanas. 
Por que intitulou seu álbum de Brazil305? O álbum Brazil ’66, do Sérgio Mendes, teve um grande impacto em mim. Mas 305 é o código de área de Miami, onde moro. Então, eu quis criar uma ponte entre Miami e Brasil. Depois, eu descobri também que existem 305 etnias indígenas no Brasil. Foi uma coincidência, gostaria que essa fosse a razão do título do álbum, mas só fui descobrir isso depois. Minha banda original, Miami Sound Machine, formada com meu marido Emilio Estefan, misturou muito dos ritmos afrocubanos, que traziam as batidas da religião Iorubá, com o funk e o dance music. Nossas raízes musicais são as mesmas. Estamos todos unidos. No Brasil se misturou com a língua portuguesa. Em Cuba a mistura é com o inglês, francês e espanhol. Então, o núcleo é o mesmo. Deve ser por isso que amo tanto a música brasileira.
 
Você esteve recentemente no Brasil para filmar um documentário. Como foi a sua estadia por aqui? O plano era lançar Brazil305 em 2017. Nós já tínhamos gravado quase tudo, mas precisávamos estreitar ainda mais esses laços. Então, decidimos rodar este documentário. No Rio de Janeiro, eu conheci o Monarco, na Portela, para falar sobre o samba. Também falamos com Zeca Pagodinho e Alcione. Ela [Alcione] me lembra Célia Cruz. É uma rainha. Foi uma experiência e um aprendizado muito grande. Quer saber qual é meu instrumento favorito do Brasil? A cuíca! Eu amo. O som me parece um lamento, muito emocional e diferente. É muito difícil de tocar, mas eu adoro.  
Como foi se conectar com Carlinhos Brown em Salvador? O Carlinhos me levou ao Candeal, onde ele foi criado e me mostrou as escolas de música que mantém para as crianças carentes. Ele me apresentou também os Filhos de Gandhi. Fiquei muito impressionada. Ele me lembrou muito a energia de Emilio. Eu enxerguei nele o Emílio brasileiro. É uma energia muito pura. O Carlinhos me convidou para gravar Magalenha e essa música já era bastante conhecida por mim, por causa da gravação de Sérgio Mendes. Descobri então que ele escreveu essa música para a mãe, que era uma mulher empoderada. Isso me fez gostar ainda mais da canção. O problema foi conseguir cantar todas aquelas palavras na velocidade que ele canta, “calangulango, do calango da pretinha”, sabe? Eu quis pronunciar corretamente. Fizemos uma boa amizade. Não gravei mais músicas em português porque toda a ideia deste álbum era saber como a música soaria se eu tivesse nascido no Brasil. 
 
O Brasil escuta pouco o que vem da América Latina. Deveríamos ouvir mais o som dos nossos vizinhos? Eu tento fazer isso. Com o Miami Sound Machine nós tentamos fazer uma mistura de sons de toda a América Latina, como os sons da Colômbia, do Chile, do México. Também do Peru. Eu acho que os brasileiros deveriam, sim, olhar mais para a música latina. Somos muito ricos musicalmente. Eu sei, o Brasil tem seus próprios ritmos e que não há espaço nas programações das rádios para outras coisas. Mas eu tenho certeza que vocês iriam amar. Temos que compartilhar mais nossa cultura, especialmente porque compartilhamos as mesmas raízes africanas.
Você tem uma bandeira cubana na sua estante. Como é a sua relação hoje com Cuba? É difícil. Eu deixei Cuba criança, então, minha relação com o país é basicamente ligada à herança cultural que peguei da minha mãe. Eu tento ajudar a melhorar os direitos humanos de lá. Aprimorar a liberdade de expressão. Muitos jornalistas do país estão presos. Recentemente eu soube que páginas de fãs-clubes meus foram proibidas em Cuba. Eu conheci DJs que já apanharam por tocar a minha música por lá. É muito triste. Quando eu cantei nos jogos pan-americanos de 1987, eles fizeram a delegação cubana virar de costas. O povo cubano sempre vai estar nas minhas orações, mas sou persona non grata por lá apenas porque falo contra o governo cubano. Quando o papa João Paulo II foi a Cuba em 1998, eu fui convidada para cantar. Era um momento histórico porque a religião não era bem vista pelo regime. Então, seria uma grande abertura. Eu não fui porque minha presença causaria mais dano do que ajuda. Hoje, Cuba, continua na mesma situação. Eu espero que haja mais abertura e que eles possam viajar mais livremente e sair do isolamento. 
 
A Flórida foi um dos estados mais atingidos pela pandemia. Como está lidando com a situação aí em Miami? Estamos fechados em casa desde março. Eu não estou vendo meus filhos e meus netos há muito tempo. E eles moram aqui perto. Estou paranoica. Tentamos nos manter ocupado, você sabe, arrumando o armário, organizando as coisas, fazendo tarefas que nunca tínhamos tempo para fazer. Tento me manter próxima dos meus fãs pela internet. Emilio e eu estamos no grupo de risco. Felizmente estamos bem de saúde. É importante as pessoas usarem máscara quando saírem de casa.
 

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