Diário MS
Get Adobe Flash player

“Natasha” começa a ser filmada em Dourados

SÉRIE DE TV reúne em 13 episódios tem como principal tema a discussão da diversidade de gênero e orientação sexual; primeira semana de filmagens foi marcada pelo carinho do público e por episódios de homofobia

 

Luciano Serafim

Diário MS

Leo Cavalheiro

ELENCO de “Natasha” prima pela diversidade: Diego Bernardino, Flávio Rocha, Valéria Diniz, Naomi Neri e Ona Silva com Thiago Rotta e Antony Magalhães

O início das filmagens da série de TV “Natasha” causou rebuliços esta semana no Jardim Água Boa, em Dourados. A segunda obra da Plug Produções reúne novamente o quarteto formado pelo diretor Thiago Rotta, o roteirista Antony Magalhães e os produtores executivos Ana Paula Ostapenko e Rafael Rotta, tem um elenco predominantemente LGBT, e se propõe a discutir a diversidade de gênero e a orientação sexual. A primeira semana de trabalho foi marcada por manifestações de carinho e apoio dos vizinhos das locações, mas também por dois episódios de homofobia.

AMIZADE EM CENA: Leona, Inês e Nicole passaram por situações que mudarão drasticamente suas vidas

Na trama da série, Natasha é uma travesti que trabalha fazendo shows em boates por todo o Brasil. Após seu assassinato, suas amigas Nicole, Inês e Leona decidem participar de um concurso de drag queens do qual Natasha participaria. Elas conseguem uma Kombi emprestada, contratam uma motorista e decidem viajar do Mato Grosso do Sul até o Mato Grosso pra participar do concurso “Raio de Sol do Pantanal”. Em uma jornada de autoconhecimento elas são obrigadas a lidar com o preconceito e falta de conhecimento da sociedade, além das dificuldades de se pegar estrada sem dinheiro e sem saber o que as espera.

Thiago conta que no processo de escolha do elenco, a palavra-chave foi representatividade: “Não queríamos atores e atrizes CIS nos papéis de personagens trans. Existe muita gente talentosa, então fomos atrás dessas pessoas. Não queríamos um elenco principal CIS e o elenco coadjuvante trans como se costuma fazer. Nós queríamos verdade, queríamos dar espaço, dar voz, visibilidade. E fizemos isso com todo o elenco principal, coadjuvante e equipe”.

A produção tem 40 pessoas envolvidas diariamente, um elenco de 34 pessoas entre principais e coadjuvantes, mais de 300 figurantes.

SET DE FILMAGENS no Jardim Água deixou vizinhos curiosos; ao todo, produção conta com 40 profissionais, elenco de 34 atores e terá 300 figurantes

Para o elenco principal, foram selecionadas Lizandra Sampaio (interpreta Natasha), Ona Silva (Leona), Naomi Neri (Inês), Diego Bernardino (Nicole) e Flávio Rocha (Mateus).

O roteirista Antony Magalhães revelou que antes de escrever a série, assistiu a dezenas de documentários e conversou com pessoas trans e travestis. “Mesmo sendo um homem gay que sente a homofobia na pele, a situação das mulheres trans e travestis é muito mais séria e complicada. Para expor bem isso, propositalmente utilizei uma série de referências e clichês pra compor os personagens e situações pra que depois desconstruísse tudo isso. As personagens inicialmente rasas, se mostram profundas e suas histórias são complexas. Natasha é a primeira série LGBT do país. São 13 episódios, mais de 300 minutos de conteúdo, onde gays, lésbicas e transexuais se sentirão representados. Acreditamos que o pioneirismo da obra renda bons frutos e ajude a mudar o pensamento de algumas pessoas. Estamos animados e produzir novas temporadas é um dos nossos objetivos”, afirmou.

 

HOMOFOBIA

Apesar da euforia e do carinho de vizinhos das locações com o início das filmagens, que publicaram em redes sociais fotos junto ao elenco da série, pelo menos dois episódios de preconceito já foram sofridos pela equipe.

O primeiro foi relatado pelo diretor, quando foi a uma loja do shopping com parte da equipe de figurino e elenco para comprar alguns figurinos que estavam faltando, e já na entrada foram alvo de olhares tortos e sorrisinhos maldosos.

“O desrespeito foi total, do vendedor ao gerente, ninguém capacitado a atender com respeito devido à diversidade. Fica claro o quanto falta uma posição e educação melhor da loja para os funcionários, e critério na contratação de pessoas preparadas para a diversidade”, afirmou Thiago.

Outro episódio foi descrito pela produtora executiva Ana Paula Ostapenko no segundo dia de filmagem, quando três homens que passavam pela locação xingaram uma das atrizes. A partir de então, ordem no set, é que ninguém mais vai se calar diante de atos como aquele.

“Eu não estou trabalhando em uma série sobre diversidade porque acho legal, divertido ou ‘cool’. Eu quero mudar vidas, quero ensinar pessoas, quero dar oportunidade a quem nunca teve e eu não vou deixar que gente escrota estrague isso, eu vou ensinar no berro, no grito ou numa conversa de bar”, desabafou ela, numa rede social.

“Será uma jornada para homenagear e dar voz a todas as Natashas que foram brutalmente assassinadas pelo preconceito, transfobia, ignorância e o ódio. Entendemos que mais do que contar uma história, temos a missão de educar o público sobre essa questão”, afirmou Thiago.

Serão 140 dias de filmagens programados, 16 semanas, com 30 locações em Dourados e Campo Grande.