Diário MS
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Mulheres libertas

Marisa Lomba (*)

 

Aproxima-se o dia 8 de Março, uma data de luta das mulheres em todo o mundo, nos seus diferentes lugares, modos de vida, instituições, movimentos sociais, para denunciarem as violências cotidianas: machismo, estupros, jornadas de trabalho sobrepostas, precarização do trabalho, preconceitos, discriminações, racismos, objetificação. Nesta data muitas mulheres são lembradas porque lutaram pelo direito a “ser mulher como quiser”. Mulheres que vêm, mulheres que vão. Em 03/02/2017, “lá se vai” uma dessas mulheres.

Marisa Letícia. Mullher Liberta se vai em meio ao turbilhão de violência simbólica somatizada por um corpo tensionado que resistiu até o último momento. Ano após ano superou os estigmas de mulher imigrante, pobre de família extensa, que sobreviveu às expropriações e explorações típicas de um país machista.

A política no Brasil, de modo rápido e assustador, ocupou um “lugar comum” controlado por grupos sociais adeptos da violência simbólica acionada por medo, ódio, preconceito à população de baixa renda, negra, migrante, LGBTTs. Essa política está legitimada por linguagens e objetivos intencionais através de discursos revestidos de neutralidade (que questionamos) e, neles estão subjacentes, amplas hostilidades para fazer emergir doutrinas e fenômenos históricos com interpretações conservadoras, sexistas, racistas, misógenas.

Nós, mulheres feministas não compartilhamos com discursos de homens machifascistas estrutrurados em mesquinharias, ofensas vergonhosas, cenas recheadas de palavras toscas e repugnantes. Lutamos por uma política feminista pautada na crítica incisiva ao exercício da política como “poder pelo poder”, “poder pelo lucro”, “poder pela ostentação”, na qual vale todo e qualquer mecanismo para a imposição de modelos de comportamento, valores, ideologias, sexualidades, lugares sociais. Continuaremos nos dedicando à crítica e resistência incansável ao projeto machifacista em curso no nosso país, liderado por homens que “cospem” patriarcado, violência, facismo, racismo, homofobia, lesbofobia.

Para esses homens, as mulheres são “mercadorias aos seus insaciáveis prazeres”, para o trabalho precário e merecedoras de violências porque não “vestem-se pros seus maridos”. “Mulheres?! Vocês já conquistaram muito, passaram dos limites, ultrapassaram fronteiras históricas, vocês voltarão para suas casas, retomem suas atividades prendadas, as responsabilidades para dar rumo à família heterossexual, esperar seus maridos, não podem questionar o que já está definido na moral judaico-cristã”.

As armas utilizadas por esses homens são simbólicas e entram rasgando nossa subjetividade, sexualidade, autoestima, capacidade de resistir. Porém, há uma saída em grande estilo, imposta por certos deputados, senadores, juízes, pastores: “ posso evitar o drama, se aquela formosa dama, esta noite me servir”.

Não! Em alto em bom som, mesmo que o “Dr Tibiriçá” seja ressuscitado por um admirador da prática de tortura. Um “tal indivíduo” que comandou entre os anos de 1970-74 na escuridão úmida, gelada e desumana do Do-Codi, cerca de 60 mortes. E as torturas, sem morte física?

Não! Em alto e bom som, mesmo que o golpe político, jurídico e midiático queira legitimar modelos de ser mulher nos meandros da política, como se vestir para acompanhar seu marido, quando/o que/onde falar (pode cochichar), como organizar festas e refeições nos modelos civilizatórios.

Não! Três vezes. Não! Em alto e bom som, mesmo diante de um golpe gerador de experiências e injustiças que silenciou lentamente, apagou devagar e sorrateiramente a luz de uma mulher, sem resistência física possível.

“Mas ela é feita pra apanhar, boa de cuspir, ela dá pra qualquer um.” Maldita mulher. Malditas mulheres que não se calam, denunciam as violências, lutam por seus direitos, desvendam as inseguranças e medos masculinos, questionam os papeis de gênero, defendem crianças e pessoas idosas. Juntam-se em fileiras, em redes, nas ruas e praças, criam suas resistências cotidianas em cada canto e recanto desse país, se rebelam com força, sensibilidade, criatividade e conhecimento. Essa é a política feminista inspiradora, encanta e nos alimenta para seguirmos em marcha. Nós não somos ingênuas, conhecemos a história do Brasil, um país de raízes escravistas, coronelistas e patriarcais.

E lá se vai Marisa Letícia, uma luz feminista, de resistência, rebeldia, sensibilidade, sabedoria e sensatez. Em sua vida representou, inspirou, fortaleceu as mulheres sem cochichar.

Mulher desobediente e rebelde em sua beleza, calma e leveza. Liberta de modelos civilizatórios, teve coragem para carregar as marcas e experiências das mulheres brasileiras em seu corpo, abriu o “templo do poder” à cultura popular. Quem assume a sua mulheridade não se midiatiza, não se intimida diante de injustiças e violências.

Continuaremos em marcha: na defesa de nossos direitos, em prol do questionamento dessa sociedade que alimenta o patriarcado com nosso sangue e suor, em movimentos sociais rumo à superação das formas de opressão, dominação e desigualdade social – envolvidas por irmandades cósmicas (com sentidos e significados libertos de modelos), inspiradas por mulheres de todas as cores, raças, orientações sexuais, expressões religiosas, são tantas experiências e estrelas cujas luzes foram consumidas por esse modelo desumano de sociedade revigorado e reforçado nesse momento trágico de nossa história – por Marisa Letícia e milhares de mulheres anônimas no cenário político, mas com nomes, faces e trajetórias de vida que fazem a história desse país — até que todas sejamos libertas das amarras da política machifacista no Brasil e no mundo.

Marisa Letícia. Mulher Liberta. Mais uma estrela, ocupará o seu lugar na memória de mulheres de luta, rebeldes e feministas. Sua postura serena, leve e calma acompanhará nossas marchas. E lá se vai uma mulher que resistiu ao direito de “ser mulher como quiser”, como milhares de outras mulheres nesse país.

 

(*) Grupo Mulheres na Política