Diário MS
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Jornal carioca diz que MS é entreposto e Corumbá paraíso do tráfico

Por terra, água ou ar, Mato Grosso do Sul é rota obrigatória do tráfico de drogas no País. Reportagem publicada no jornal carioca O Dia evidencia uma situação que já é de conhecimento do sistema de Segurança do Estado, além de mostrar as alternativas criadas pelos traficantes. Os bandidos aproveitam as balsas que escoam produção da soja no Centro-Oeste ou jogam o carregamento em áreas alagadas de fazendas em Miranda (MS) e de lá seguem com destino para São Paulo ou Rio de Janeiro.

A reportagem publicada hoje na edição do O Dia traça o caminho da droga no País e cita Campo Grande como o “grande entreposto da cocaína vinda da Bolívia” e Corumbá como o “paraíso de investimentos do narcotráfico”. O esquema abastece principalmente o Rio de Janeiro, mercado que recebe 44 quilos de cocaína por dia, conforme estimativa da Organização das Nações Unidas, para quem a Bolívia faz chegar ao Brasil 50 toneladas da droga por ano. A engrenagem passa por dezenas de mãos e faz surgir a cada hora uma nova alternativa à fi scalização da polícia. Uma lógica no comércio que lucra US$ 132 mil (R$ 264 mil) por dia só com a venda de cocaína para o Rio.

Uma das novidades do crime é fazer a droga atravessar o Rio Paraguai de ‘carona’ nas balsas que escoam a produção da soja no Centro-Oeste. Depois que chega perto da fronteira entre Brasil e Bolívia, ela é colocada em bombonas lacradas e afi xada sob o casco das embarcações. Chamada de “submarino”, a tática faz a cocaína seguir o rio até fi car livre do assédio da polícia. Em alguns casos, desconfia a Polícia Federal, o percurso vai até o Porto de Santos, em São Paulo.

Outra inovação das rotas é usar os aviões para transportar a carga até 20 minutos de vôo após romper o espaço aéreo brasileiro. Eles jogam o carregamento sobre áreas alagadas ou em grandes fazendas em Miranda ou em Porto Experidião. A droga é depois transportada em caminhões até Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, considerado o grande entreposto da cocaína vinda da Bolívia. E todo este esquema é para evitar perder o avião. Os traficantes sabem que os caças da Força Aérea Brasileira estão a 45 minutos e, desde a entrada em vigor da lei do abate, os militares estão autorizados a derrubar a aeronave. É o tempo exato de entrar no Brasil, atirar a carga e retornar ao território boliviano. O recurso é usado pelos grandes traficantes.

Bem menos sofisticada e mais arriscada também, a rota do traficante pobre é uma aventura. Ele pega a coca e atravessa Santa Cruz de La Sierra no chamado Trem da Morte. Bem cansativo, pois leva 21 horas na travessia, o percurso escoa a coca até Puerto Quijarro e Puerto Suarez, onde fica armazenada em fazendas até ser negociada.

A porta de saída das drogas é a cidade de Corumbá, no Mato Grosso do Sul, e, em caminhões, carros e ônibus comuns chegam a Campo Grande e ao eixo Rio-São Paulo. Em alguns casos, há quadrilhas na Bolívia especializadas em esconder drogas nos veículos. Há um ano, a Polícia Rodoviária Federal apreendeu um ônibus que partia de Puerto Suarez para São Paulo com a lateral ‘recheada’ de pasta-base. Os agentes pediram outro veículo para seguir viagem com os passageiros, que foi parado mais adiante e, a surpresa: também trazia drogas escondidas na lataria.

Mas todo o percurso da rota do tráfico começa em Cochabamba, onde é colhida a folha da coca e transformada em pasta-base. Na cidade é comum ver caminhões andando abarrotados de sacos coloridos cheios de coca. O destino tanto pode ser o processamento de chás ou o tráfico de drogas. Na segunda opção, ela vira pasta-base e segue dois caminhos. O mais badalado e fácil é o que leva até Santa Cruz de La Sierra.

Lá, a pasta-base é refinada em laboratórios nas fazendas que fi cam nos bairros de Monteiro e Okinawa e parte para a fronteira com o Mato Grosso do Sul. Outra alternativa criada é com a cocaína passando por Trindad, onde é refi nada, e seguindo até San Mathias, para entrar no Brasil por duas cidades no Mato Grosso: Cáceres e Pontes e Lacerda.

Via de Rondônia

Uma das mais recentes rotas criadas é comandada pela turma de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar. É de Trindad, cidade de Beni, que o traficante Leomar Pereira Barbosa, o Leozinho, envia drogas para o Rio de Janeiro. Ela atravessa San Ignácio e San Mathias e entra no Brasil por Pontes e Lacerda, no Mato Grosso.

É a chamada via de Rondônia, pois fica bem na divisa dos dois estados. O restante do caminho até o Rio é pelas estradas. O bandido também usa a rota para o envio de armas. Ele adotou o caminho após a briga da quadrilha com rivais na fronteira do Paraguai, onde o bando é acusado de assassinar família inteira na disputa por drogas.

Beira-Mar já conhecia o poder empreendedor de Mato Grosso do Sul para o esquema do tráfico de drogas. Porta principal da entrada da cocaína boliviana no Brasil, o município de Corumbá é um paraíso de investimentos do narcotráfico. Foi na cidade que a Polícia Federal descobriu que o carioca usava as agências do Banco do Brasil como central para depósito dos lucros de suas bocas-de-fumo espalhadas pelo Rio de Janeiro e dos negócios no Paraguai. Antes de ser preso, chegou a visitar a cidade para fazer negócios.

Corumbá, aliás, é apontada como a cidade-point das casas de câmbio e das empresas de exportação e importação. Só o câmbio já movimentou perto de R$ 380 milhões por ano, como descobriu o Departamento de Investigação Financeira da Bolívia. O tráfico é acusado também de investir nos hotéis para a lavagem de dinheiro, como foi levantado na CPI do Narcotráfi co, na Câmara dos Deputados, em Brasília.

Mas não está só: as cidades vizinhas de Puerto Murtinho e Bela Vista também sofrem da narcodependência’. A Polícia Federal já descobriu que traficantes investem nas fazendas para aproveitar os belos lucros da soja, e também do gado, um mercado muito cobiçado para lavagem de dinheiro.

Cidades viciadas

As casas de luxo, o comércio gigante, os hotéis caprichados e as lojas de câmbio vão logo enunciando: tem alguma coisa que não cheira muito bem em pelo menos 20 cidades localizadas ao longo da fronteira seca do Brasil com a Bolívia e um pedaço do Paraguai. É que os municípios vivem no caminho da rota das drogas e a badalação e o requinte nas ruas mostram que uma parte do dinheiro do tráfico alimenta os cofres públicos e as finanças de quem mora na região.

Bem mais: com a tamanha capacidade de ‘investir’, o narcotráfico ergueu um império significativo para lavar o dinheiro das drogas no interior do Mato Grosso, do Mato Grosso do Sul, da Bolívia e do Paraguai. São comércios, indústrias e fazendas que geram empregos e impostos e criaram a dependência de moradores e dos municípios ao dinheiro do comércio de entorpecentes.

É fácil entender o grau de dependência dos moradores e das cidades. Basta olhar a lista dos bens encontrados em nome dos responsáveis pelo envio de drogas e armas para o eixo Rio-São Paulo. Luiz Carlos da Rocha, o Cabeça Branca, por exemplo, é dono de 16 fazendas e só em três delas tem 10 mil cabeças de gado e emprega 120 pessoas. Seu colega de processo, Odacir Antônio Dametto, tem um patrimônio (em seu nome e de laranjas) superior aos US$ 500 milhões e mais de cinco mil empregados. Só uma de suas indústrias, instalada na cidade de Aral Moreira, Mato Grosso do Sul, sustenta 200 famílias.

Em Corumbá, os policiais civis já se acostumaram a ver comerciantes transformarem seu pequeno negócio num empreendimento com dezenas de casas. Recentemente, um investigado por ligação com o tráfico amplicou a rede de mercados e abriu mais 80 empregos. Só tem um problema: toda vez que a polícia aperta o cerco vem o período de queda da oferta de trabalho. de decadência do empresário e de desespero das cidades, que normalmente têm pouca oferta de trabalho.