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Em “O Silêncio do Céu”, casal em crise enfrenta trauma barra-pesada

Albano Pimenta

Depois de um período vendo apenas produções norte-americanos, bateu aquela vontade de ver materiais mais próximos do meu mundo. Talvez algo latino-americano ou mesmo nacional, eis que o Netflix me deu essa combinação perfeita: um filme dirigido pelo brasileiro Marcos Dutra, que se passa em Montevidéu e é todo falado em espanhol. Pelo menos quase todo.

“O Silêncio do Céu” (2015) é o tipo de suspense barra pesada, pois logo no início somos apresentados a uma cena de estupro envolvendo a personagem Diana (Caroline Dieckmann), onde o diretor abusa e não economiza no tempo desta cena. A sua escolha acaba criando uma tensão que deixa o espectador cada vez mais preso aquela situação repulsiva, já que ela acaba sendo repetida para dar espaço ao ponto de vista do protagonista Mario (Leonardo Sbaraglia), que flagra o estupro de sua esposa, mas não consegue reagir em defesa dela.

Esta estratégia gera curiosidade no espectador e consequentemente o prende à trama. No entanto, assim que encerra a apresentação dos principais personagens, o filme toma um rumo mais calmo, seguindo para uma espécie de exercício de personagem, o que acabei considerando muito bom, tendo em vista o impacto da primeira cena. É neste desenvolvimento que o diretor Dutra mostra que fez a lição de casa e resgata toda a sua referência dentro do gênero suspense.

Assim como os personagens de Hitchcock, Mario é complexo, cheio de traumas e aparentemente sempre buscou em Diana segurança e estabilidade emocional, mas diante deste fato e com o silêncio de sua esposa, ele começa a refletir sobre a relação deles como casal. Eles estão reatando o matrimônio depois de uma separação de dois anos e a atitude dos dois é de cautela, tentando não estragar aquilo que ainda está sendo consertado. É neste contexto que Mario percebe que o casamento acaba sendo uma espécie de teatro que obriga os envolvidos a encenar a vida ideal, como um sistema que só é possível mediante a este exercício, estendendo a etapa de sustentação dos papéis criados por cada um. Logo, a medida tomada pelo protagonista para ajudar sua esposa a superar aquele trauma é criar um novo personagem capaz de executar uma vingança solitária.

A fotografia, junto com a equipe de direção de arte, imprime uma paleta de cores que contribui muito para a construção discursiva do filme, evidenciando o azul que envolve suas personagens principais Mario e Diana. Além do figurino, a disposição dessa cor pela casa deles fortalece a ideia de que ali talvez represente o céu aberto, limpo e propício para o florescer — mas até em ambientes calmos e acolhedores existem segredos. Por isso, é nítida a transformação do ambiente para algo mais escuro conforme a trama vai ficando mais tensa, como se uma tempestade silenciosa estivesse por vir, por meio de Marcos que sempre está vestindo tons escuros, inclusive o azul.

Outro destaque fica para toda a construção sonora do filme, que em consonância com a imagem, além de criar o clima ideal para esta produção, apresenta ao espectador momentos genuínos do cinema. O som, assim como sua ausência neste filme, evoca emoções tensas dignas do gênero explorado por Marcos Dutra. Algumas cenas onde a ação ocorre além da tela, impedindo o espectador de ver, mas não de senti-la por meio do som, eleva toda a produção, mostrando que cada passo do filme foi devidamente pensado e planejado para causar o impacto desejado pelo diretor no espectador.

O som é um elemento fundamental para os filmes de terror e suspense, e o trato dele nesta produção me fez lembrar muito os filmes de M. Night Shyamalan, principalmente sua última produção, “A Visita”, o qual recomendo ser visto de forma despretensiosa. Lembrando também que Shyamalan bebe muito na fonte de Brian de Palma, que também é fã declarado de Hitchcock.

As atuações são de alto nível e o destaque fica para Caroline Dieckmann que desde o filme “Entre Nós” (2013), de Paulo e Pedro Morelli, vem demonstrando que consegue diferenciar sua atuação da TV para aquela empregada no cinema. O ator argentino Leonardo Sbaraglia, conhecido pelo elogiado filme argentino “Relatos Selvagens” também não faz feio e conduz seu protagonista de forma coerente com a trama. Sem exageros e muito intenso a ponto de, em algumas cenas, desejarmos que ele não tome as medidas escolhidas, pois é nítida que suas ações não condizem com sua forma de agir ou de pensar.

O filme é uma adaptação do livro “Era El Cielo”, de Sergio Bizzio, e o roteirista parece ter mantido a essência do livro. Em algumas entrevistas o roteirista Caetano Gotardo afirma que o filme trata de ser “uma descida ao inferno moral dos personagens, a construção de uma degeneração da relação de um casal em um mundo em violência constante”.

Realmente, um filme tenso, de gênero definido e digno de orgulho a nossa produção cinematográfica que muitos ainda insistem em torcer o nariz, mas que deve ser respeitada e vista, principalmente por nós brasileiros, pois se lá fora muitos elogiam o cinema nacional, inclusive suas produções recentes, por que então a gente fica criticando sem ter paciência e disposição de ver coisa nova?

 

Nota: Este filme é uma produção realizada em parcerias entre Brasil e Peru.

 

ALBANO PIMENTA é graduado em Comunicação Social pelo Centro Universitário de Adamantina – UNIFAI e pós-graduado em Semiótica pela Universidade do Oeste Paulista. Trabalha como coordenador na Divisão de Audiovisual da UFGD. Dirigiu em 2016 curta-metragem “Conexões perdidas”.