Diário MS
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DEBATE CULTURAL : Viva a História Coletiva, Reviva a Memória Pessoal das Artes Cênicas!

Fabricio Moser*

Sergio Riopravoce/Ricardo Martins

Em 27 de março de 1961, dia em que foi inaugurado o Teatro das Nações, em Paris, o Instituto Internacional de Teatro (ITI), órgão ligado a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), criou o Dia Internacional do Teatro. Especialmente no Brasil, nessa data, é celebrado igualmente o Dia Nacional do Circo, uma homenagem ao expoente Palhaço Piolin, que também nasceu em 27 de março, do ano de 1897, na cidade de Ribeirão Preto, São Paulo. No entanto, o Teatro e o Circo não existem no Brasil e no mundo somente desde essas duas datas coincidentes, são artes milenares, que por meio da força da cena, ao longo dos séculos de humanidade, vem se relacionando de forma vital com diferentes comunidades, sociedades e culturas.

Não parece possível precisar com exatidão quando começou a se manifestar no homem o espírito que sustenta as Artes Cênicas, mas seu ímpeto apareceu primeiro com a intenção de comunicação entre indivíduos e encontrou lugar nas celebrações e rituais. Para o mundo ocidental, o Teatro encontra suas raízes na Grécia Antiga, dos ditirambos à Dionísio aos festivais de tragédias e comédias, enquanto as artes do Circo encantavam livremente as diferentes civilizações, ganhando destaque durante o Império Romano. No Brasil, a representação teatral e circense estava presente nas brincadeiras, no contar histórias, nas danças e celebrações indígenas, mas como arte formal elas chegaram ao país a partir do processo civilizatório empenhado por portugueses, espanhóis e outros.

Que me lembro, as primeiras vezes que tive contato com as Artes Cênicas de forma organizada foi nos anos 1980, eu era uma criança de 4 ou 5 anos, que com uma trupe de primos e vizinhos era dirigido pela minha irmã mais velha, Joseane, que tinha 12 anos. Nas férias de final de ano passadas na casa da vó Maria em Cruz Alta, Rio Grande do Sul, encenávamos encima das escrivaninhas, dispostas a frente de dois cabides com lençóis estendidos como rotunda e coxia, cenas coreografadas das músicas do Balão Mágico. Os pais e parentes compareciam em peso as sessões, que aconteciam numa casa abandonada no fundo do quintal, e pagavam alguns trocados pela nossa performance, com o lucro a diretora conseguia comprar picolés e nós, atores, chicletes e paçocas.

Durante a infância e a adolescência em Dourados, no interior de Mato Grosso do Sul, tive pouco acesso as Artes Cênicas, os espetáculos de Circo ocorriam com mais frequência e as trupes apresentavam peças em sua programação, mas espetáculos de Teatro de grupos locais e estrangeiros fora desse contexto eram eventuais. Também era possível ter contato com as linguagens cênicas na formação escolar, não havia especialistas atuando em sala de aula, mas professores de Artes Visuais e Português ofereciam aos alunos fecundas vivências teatrais. Por meio de órgãos públicos de Educação e Cultura aconteciam ações esporádicas, oficinas de formação e, nos escassos palcos da cidade com certa estrutura para receber espetáculos, apresentações de peças.

Mesmo sem uma relação muito aproximada com as Artes Cênicas na minha criação, essas e outras experiências despertaram em mim a certeza de que seria através desses fazeres milenares que eu atuaria no mundo. Com esse horizonte, ingressei em 2002 no Bacharelado em Artes Cênicas da Universidade Federal de Santa Maria e em 2009 no Mestrado em Artes Cênicas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, me estabelecendo até hoje profissionalmente no Rio de Janeiro. Ao lado dessa formação acadêmica ocorreu minha trajetória artística e nela o teatro se mostrou como a vida, de múltiplas formas, não apenas como meio de expressão, sobrevivência, entretenimento, mas como experiência de conhecimento e transformação, conectando afetivamente pessoas e saberes, uma ferramenta eficiente para promoção da saúde mental e social.

Diante desse panorama de histórias coletivas e memórias pessoais, do teatro na infância à decisão por tornar esse fazer minha profissão, fica difícil encarar o dia 27 de março de 2017 de forma festiva. As Artes Cênicas, e outras linguagens, enfrentam no Brasil uma crise, repensam seus modos de produção e o seu lugar no tecido social, comemoram a conquista das artes na Educação, mas lamentam os ataques contra a Cultura, o corte dos poucos investimentos públicos para o setor nas esferas municipal, estadual, federal. De modo algum o contexto de crise é novidade ou anuncia o fim do Teatro e do Circo, pelo contrário, alimenta a permanência e o sentido dessas práticas, a continuidade e expansão de seus poderes coletivos, sustentam o fio vital que eles têm com a sociedade.

 

* Douradense, FABRICIO MOSER é ator, diretor e professor, bacharel (UFSM/2006) e mestre (UNIRIO/2011) em Artes Cênicas, reside no Rio de Janeiro desde 2009.