Diário MS
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DEBATE CULTURAL: 13 Reasons Why e seus muitos “porquês”

Evelin Gomes da Silva*

Por que a palavra suicídio assusta?

Por que um seriado sobre esse tema se torna algo “polêmico”?

Por que é tão difícil falar sobre o fato de que (às vezes) as pessoas pensam em se matar?

Por que não podemos conversar sobre isso?

Para cada uma das perguntas acima há pelo menos umas cinco respostas envolvendo ponderações de cunho religioso, familiar, cultural, social e comportamental. Mas não é sobre isso a discussão e nem o que a igreja, a sociedade ou a psicologia diz. Neste exato momento, isso não importa, não é o foco aqui!

Essa reflexão é, simplesmente, sobre o fato de que é… “comum” pensar em se matar e “fácil” se deixar levar por esse sentimento de finalização, mesmo porque temos à disposição inúmeras formas de realizar tal ato: bebidas, remédios, drogas, carros, motos, prédios… plataformas do metrô (você já olhou atentamente para elas? É assustador e, ao mesmo tempo, libertador).

Por que não podemos conversar sobre isso?

Por que um seriado voltado para jovens está chocando tantas pessoas?

Simplesmente porque esse assunto ainda é um tabu dentro de nossas casas, com nossa família, amigos. Muito menos a escola pode abordar o tema. O jornalismo então… este sim, é capaz de incitar as pessoas a cometerem o terrível ato de ceifar sua vida, seu próprio destino.

Mas se você não assistiu ao “13 Reasons Why”, estreia da Netflix da última sexta-feira (31/04/2017), eis aqui um convite à discussão. O seriado é uma adaptação do best-seller Th1rteen R3asons Why (2007), de Jay Asher e foi dirigido por Thomas McCarthy, de “Spotlight: Segredos Revelados” e roteirizada pelo vencedor de um prêmio Pulitzer, Brian Yorkey.

A obra traz um olhar sobre o período mais conturbado de nossas vidas — a adolescência — e os problemas que muitos de nós tivemos (e temos), tais como: o cyberbullying, a depressão, o suicídio, a solidão, a invasão de privacidade, a influência das amizades, a ansiedade e os abusos sexuais e emocionais.

São questionados ainda sobre a omissão dos pais, dos amigos e da escola sobre as situações diárias de violência que muitos jovens passam, principalmente, devido ao fato das redes sociais comandarem a vida contemporânea. Mas, principalmente, nos interpela sobre os disfarces sociais, aquelas máscaras sentimentais diárias, que vestimos logo pela manhã.

De maneira sensível, a série conta a história de Hannah Baker (Katherine Langford), uma jovem que se suicidou. Mas ao invés do “clichê” da temível carta de despedida, ela deixou 13 fitas contando o seu ponto de vista sobre tudo que sofreu na escola. Todos os envolvidos se tornam culpados e cúmplices e em cada fita estão as possíveis explicações dos “porquês” de ela cometer tal ato.

A cada episódio escutamos junto com Clay Jensen (Dylan Minnette) uma das fitas e entendemos um pouco mais sobre a vida da bela caloura da escola… que, aliás, podia ser qualquer pessoa. Poderia ser você… poderia ter sido eu naquela situação. As feridas abertas por Hannah, ao longo das cenas, nos fazem rememorar determinados momentos já superados com a vida adulta (Será mesmo verdade? Você acredita nisso? Foram superados?).

Ou seja, Hannah não é um caso isolado, algo que só ocorre na ficção. A violência (sexual ou emocional), o bullying, a depressão e, como consequência, o suicídio é uma realidade e uma discussão necessária na atual sociedade. Você está preparado (a) para isso? Então venha desarmado (a) dos estereótipos de que suicídio é um ato covarde, corajoso, mesquinho ou fútil. O suicídio é um ato individual, mas em sua essência muitos são os envolvidos…

 

* Jornalista e mestranda do PPG-Mestrado em Letras (UFGD) na Faculdade de Comunicação, Artes e Letras (FACALE). Integrante do Grupo de Estudo InterArtes.