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“A Chegada” é uma reflexão sobre as dificuldades de nos comunicar

Divulgação

Devo confessar que 2016 não foi um ano muito prolífero para o cinema e que estava aguardando ansioso “A Chegada” (“Arrival”, dirigido por Denis Villeneuve.

A história do filme inicia assim que a terra é abordada por óvnis e o exército americano convoca a doutora em linguística Louise Banks(interpretaçãocompetente de Amy Adams) para traduzir os signos emitidos pelos aliens.

Reclusa e dedicada exclusivamente aos seus estudos, a escolha dela é justificada de forma inteligente no roteiro, onde, além de sua capacidade intelectual, também foi considerada sua experiência em trabalhos anteriores para o exército americano, logo a inserção da protagonista na trama é de forma orgânica e não soa forçada. Já o doutor Ian Donnelly (Jeremy Renner), aparece junto com a problemática da protagonista, dando a impressão de que sua contribuição servirá apenas como um recurso de cumplicidade entre os personagens, justamente por ser um pesquisador e não um militar, assim, estabelecendo um diálogo compatível com Louise.Porém, a presença de Ian se justifica no decorrer do filme, aliada as descobertas da protagonista que acaba por revelarao espectador averdadeira finalidade do doutorna trama.

Mesmo com pouco tempo de exibição, a construção da personagem Louise é muito bem apresentada eganha intensidade assim que chega à base militar. O ambiente, predominantemente masculino, é opressor, frio e precipitado,e o mérito pode ser atribuído à fotografia de Bradford Young que constrói este clima,por meio de contrastes com luz e cor.Este recurso fica mais evidente quando analisamos a relação entre os cientistas: homem x mulher. A iluminação da doutora na estação militar é pontual, e gradativamente vai intensificando por meio de luzes amareladas (quente), evidenciando o seu lado mais flexível, criativo e emotivo, tendo em vista que, as soluções encontradas por ela estão relacionadasà sua “memória” afetiva, diferente da iluminação predominantemente azulada (frias) da base e da divisão de estudos do doutor Ian que se demonstra mais racional, menos emotivo e intuitivo.O legal desse jogo de iluminação e ver que sempre a luz de Louise puxa Ian e, desde detalhe da iluminação até os enquadramentos, é nítida a distinção de Louise dos outros personagens e de como o diretor se preocupa em conectá-la com a nave em algumas cenas.

Os dois atores demonstram total controle de suas personagens que resultam em performances convincentes. Expressões simples de olhares conseguem transmitir sentimentos de surpresa e insegurança diante de um desafio tão complexo e ao mesmo tempo fascinante. Certamente vão ser lembrados nas premiações, inclusive no Oscar.

Forest Whitaker e Michael Stuhlbargestão em papeis menores, porém eficientesaoassumir o lugar de espectador em cenas expositivas, representadas de forma espontânea e sem o didatismo característico do gênero.

A trama carrega elementos já explorados em outros filmes como“Contato” (1997) e “O Dia em que a Terra Parou” (1951), mas foi de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1968), que recordei primeiro. A semelhança da nave com omonólito vai além da estética. Este elemento é muito importante na narrativa de 2001,pois representa, de forma imagética, a ciência,o conhecimento,o marco transitório das principais descobertas da humanidade.O monólito é enquadradopela câmera muitas vezes como uma ponte ou um portal a ser acessado,assim como as navesdo filme.

A interação entre humanos e heptapodsaconteceno interior da naveem uma sala escura, através de uma divisória retangularque emite uma luz branca, como uma sala de cinema, que também abriga símbolos particulares de uma linguagem, ou um quadro branco a ser preenchido por um professor. Prestem atenção na interação de Louise com a luz/Tela e nave. O interessante é que,ao mesmo tempo em que seu interior é um espaço de aprendizagem, a estrutura externa, parece uma janela escura. Como um quebra cabeçaquando falta uma peça.

Adaptado do conto “StoriesofYour Life andOthers”de Ted Chiang,“A Chegada” explora as mesmas ideias de sua fonte, como questões filosóficas em torno do determinismo e a comunicação por meio de uma linguagem evoluída. Esmiuçar mais é um risco que pode revelar detalhes importantes da trama, então concluo dizendo que o filme, além de um ótimo Sci-Fi, é uma reflexão sobre linguagem. E que, só é possível existe comunicação quando duas ou mais partes estão dispostas a serem entendidas, assim, abrindo mão da sua língua para aprender, não só um novo idioma, mas um novo modo de pensar; perceber a vida e a própria realidade.

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ALBANO PIMENTA é graduado em Comunicação Social pelo Centro Universitário de Adamantina – UNIFAI. Trabalha como coordenador na Divisão de Audiovisual da UFGD. Dirigiu em 201 6 curta-metragem “Conexões perdidas”. Comanda a coluna Além da Tela.