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“Blue Jay” surpreende ao fugir do clichê piegas do gênero romântico dramático

Albano Pimenta

Divulgação

Não costumo assistir filmes no Netflix, prefiro acompanhar suas séries exclusivas, mas como atualmente não encontrei alguma que estivesse preparado para ingressar numa jornada de vários episódios, retomei a ideia de ver filmes. Foi aí que “Blue Jay” apareceu na minha janela.

Pela sinopse pode-se concluir que o filme é um clichê piegas do gênero romântico dramático, mas “Blue Jay” é do tipo de filmes que te pega pela experiência afetiva. A mesma tentativa de conectividade que os personagens vão tentando estabelecer entre si até chegar ao clímax do filme parece se estender ao expectador, que se vê testemunha presente daquele encontro, como um colega que conheceu os dois desde o encontro deles no colegial, mas não compreende o porquê de estarem vivendo vidas separadas, já que são tão bonitos juntos.

A história começa quando Jim (Mark Duplass, que também é roteirista do filme) e Amanda (Sarah Paulson) retornam para uma cidadezinha do interior da Califórnia onde viveram na adolescência e coincidentemente se reencontram adultos em um supermercado. Dali os dois voltam a se conectar e relembrar dos bons e maus momentos do passado.

Como o filme tem uma proposta independente, o foco está no texto e nas interpretações. Segundo o site IMDB, parece que o filme não tinha um roteiro tradicional que auxiliasse seus atores com indicações de diálogos e expressões. Era apenas expositivo, descrevendo o que cada personagem tinha como missão na história, ou seja, os atores rodaram no improviso. Daí você começa a entender o mérito de Sarah Paulson e suas indicações em premiações recentes (Emmy e Globo de Ouro).

Nesse jogo “improvisado” que se dá “Blue Jay”, o acaso se torna elemento importante, tanto no momento em que o casal se encontra até seu plot twist (recurso no roteiro com objetivo de manter o interesse do público e normalmente surpreendê-lo com uma revelação) no final. E não pelos fatos apresentados e debatidos na história, mas sim pelo desencadeamento que definiu o destino dos dois.

Quando vemos Jim e Amanda relembrando a juventude dentro da casa do rapaz é como se os dois entrassem em uma máquina do tempo; um verdadeiro ninho protegido que permitisse a eles, reviver os momentos mais intensos daquela época. Como os sonhos juvenis não alcançados, suas brincadeiras de namorados, as músicas que marcaram momentos juntos, cheiros, roupas, enfim, uma nostalgia prazerosa que cria campo de conforto para o espectador, mas também apresenta pequenos momentos de incerteza e é ali que mora a verdadeira razão do futuro, ou atual situação dos dois.

 

Opa! O filme é em preto e branco. Vamos dar uma chance…

 

A fotografia do filme trás um preto e branco bonito que, além de funções meramente estéticas, remete a uma densidade dramática, assim como no belo filme “Nebraska” (2013, dirigido por Alexander Payne). Entretanto, no filme de 2013, de imediato são percebidas as articulações narrativas e temáticas. Em “Blue Jay” ele vai ganhando camadas conforme suas personagens vão expondo seus pontos de vista, atribuindo ao filme uma carga pesada para o que parecia um simples romance.

Costumo dizer que, particularmente, não me lembro das cores da minha memória, e sim das imagens. Então acredito que a escolha da fotografia vem remeter à memória, já que o roteiro norteia seus personagens a um mergulho no passado. Ainda mais se considerar que a câmera, como é de costume em filmes independentes, atua como um terceiro personagem, como uma testemunha ocular presente, assim, acaba por contribuir ainda mais para a imersão do espectador na história.

“Blue Jay” é um filme simples, belo e despretensioso. Que apesar de não apresentar sofisticações na sua forma ou na sua ideia, ele é honesto naquilo que se propõe e inesperado para espectadores mais resistentes ao gênero romance.

Nota: “Blue Jay” é uma espécie de gaivota que natural da América do Norte e tem como características a agressividade e a monogamia e a permanência do grupo familiar.

 

ALBANO PIMENTA é graduado em Comunicação Social pelo Centro Universitário de Adamantina – UNIFAI e pós-graduado em Semiótica pela Universidade do Oeste Paulista. Trabalha como coordenador na Divisão de Audiovisual da UFGD. Dirigiu em 2016 curta-metragem “Conexões perdidas”.