Diário MS
Get Adobe Flash player

Além da tela: SE HOJE TEM “LOGAN” NOS CINEMAS É POR CAUSA DE OUTRO FILME

Albano Pimenta

Divulgação

Depois de “Moonlight” e “La La Land – Cantando estações”, o filme mais comentado do momento é “Logan”, mas o que seria do personagem Wolverine sem aquele “X-Men” de 2000?

Hoje qualquer um pode falar que ele é um filme ruim, ainda mais considerando 17 anos de evolução, mas você já parou para pensar que este foi o grande desbravador do que hoje podemos considerar um novo gênero cinematográfico que são os filmes de super-heróis? Acredite, isso não é um blefe. A Fox, junto com um diretor talentoso da época, realizou uma produção digna de respeito e que além de definir uma proposta estética, criou alicerce solido para ampliar o universo, principalmente dos personagens da Marvel.

Naquele momento, o desafio de Bryan Singer não era pequeno. Ele precisava criar uma história que comportasse aquele grupo de personagens numa aventura onde a interação deles funcionasse e adaptá-los em um formato que ampliasse seu alcance de público. Devemos lembrar que quando se propõe fazer esse tipo de filme (ditos de entretenimento), Hollywood se porta como a indústria que deve ser, sempre visando uma amplitude mundial. Logo, a Meca do cinema mundial não podia se contentar em agradar apenas os fãs dos quadrinhos. Por isso, “X-Men” é uma adaptação daquele universo de seres superdotados, não é uma transcrição fiel dos quadrinhos e, particularmente, isso engrandeceu a proposta do diretor.

Outro desafio era tornar aquele universo crível e não algo caricato, como o filme do Capitão América de 1990, ou ultrapassado, como o “A volta do Incrível Hulk” de 1988, que conta com a presença de Thor. A direção de arte teve um desafio muito grande em tornar aqueles heróis realistas se considerar o contexto original deles. A leveza veio por meio da fotografia, que explora uma estética muito batida atualmente, principalmente pelos seriados teens de heróis como “Flash” (2014), “Smallville” (2001) e “Arrow” (2012) explorando cores vibrantes e iluminações menos sombrias e mais leve, diferente dos filmes do Batman de Tim Burton.

Outro mérito do diretor são as ótimas apresentações de seus personagens. Só para justificar esta afirmação: a mesma cena criada para este filme onde vemos um jovem Eric Lensherr (Magneto) sendo separado de sua família e manifestando seu poder num campo de concentração, é repetida no filme de 2011 — “X-Men: Primeira Classe”. O poder psicológico que esta cena carrega e a analogia que ela faz com uma luta do mundo real sendo repetida lá no futuro por seres considerados evoluídos se torna um recurso muito rico para o roteiro, até mesmo quando percebemos que Magneto ainda guarda rancor daquela época e a sua postura radical é apenas justificada pela vingança contra a humanidade.

Outra cena que lembro ter saltado da cadeira do cinema foi aquela que apresentava o popular Logan. Ali Bryan Singer define bem a natureza deste personagem e de quebra conquistou a afeição dos fãs e dos não-fãs dos quadrinhos.

A narrativa do filme é conduzida pelo ponto de vista de Logan, que entra para o X-Men pelo acaso e acaba em uma missão divertida para o público. Mesmo sobre a tentativa de o roteiro explorar outras relações interessantes, como a de Xavier e Magneto, de Vampira e Logan, vemos que o entrosamento entre os personagens vividos por Hugh Jackman e Patrick Stewart é o ponto alto da trama. Apesar de Logan ainda ser um personagem muito agressivo, vemos a paciência de Xavier em tentar acalmá-lo, mostrando que ele entende seu comportamento e seus temores mais profundos. No filme “Logan” isso se vira para Xavier, mostrando que Logan se tornou mais “paciente” com seu mentor.

O diretor de “Logan”, James Mangold, assim como Bryan Singer, se preocupou mais em adaptar o personagem do que retratá-lo como o Wolverine dos quadrinhos. É claro que não estou comparando as duas obras, mas sim refletindo sobre o que as torna tão especiais. No filme de 2000, uma das lutas finais de Logan é contra a Mística, que para enganar seus adversários se transforma em Wolverine. Eles travam uma luta dura onde Logan só a derrota após ela se transformar em outro personagem. Para aqueles que já viram o filme de 2017 (fique tranquilo não há spoiler) um dos inimigos mais letais de Logan é semelhante àquele de 2000, notamos que existe uma rima visual e, psicológica do personagem. Se James Mangold teve todo esse cuidado de elaborar uma história e adaptar este personagem nela, ele também teve o cuidado de respeitar todo o histórico do personagem em suas franquias.

“Logan” marca uma nova fase para o gênero, mostrando que um filme de herói não precisa ser uma revista em quadrinhos, ele deve cumprir com o objetivo de ser um filme. Assim como “X-Men”, fez um filme sobre personagens superpoderosos e definiu um gênero cinematográfico e (para o bem ou para o mal) impregnou o que hoje vemos todos os anos nas telonas.

 

NOTA: Não considero o filme “X-Men” de 2000 ruim, acho uma adaptação muito competente e relevante para o universo dos super-heróis Marvel.

 

ALBANO PIMENTA é graduado em Comunicação Social pelo Centro Universitário de Adamantina – UNIFAI e pós-graduado em Semiótica pela Universidade do Oeste Paulista. Trabalha como coordenador na Divisão de Audiovisual da UFGD. Dirigiu em 2015 curta-metragem “Conexões perdidas”.