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ALÉM DA TELA: “Rogue one: Uma história Star Wars” não é requentado e oxigena a franquia

 

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Às vezes o presente se torna estranho quando percebemos que chegamos ao futuro, reféns daquelas fantasias do passado.

Contos que vão desde os irmãos Grimm até o universo galáctico de George Lucas têm sempre espaço no agora e algumas vezes limita a criatividade apenas a estes universos criativos. Lembro quando foi anunciado “O Despertar da Força”, sequência da trilogia clássica de “Star Wars”. Foi fantástico viver aquela empolgação coletiva, imaginar Luke, Princesa Leia, Han Solo e Chewbacca com a tecnologia atual. Era certo que o resultado seria um verdadeiro espetáculo visual — e realmente foi, até me emocionei com a introdução clássica. Mas ao término da exibição, saí com aquela sensação de digerir algo requentado.

 

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Desta vez, ao sair da sessão de “Rogue One – Uma história Star Wars”, a sensação foi diferente, fiquei surpreso. Vi um filme bem melhor que aquele de 2015.

Este spin-off conta a história de como um grupo de rebeldes conseguiu descobrir o lendário ponto fraco1 da nave Estrela da Morte. Simples, mas que rende uma boa história e atende às expectativas dos fãs, principalmente daqueles mais antigos que desde a trilogia I, II, III, aguardava inovações narrativas, mas viu o formato de George Lucas sendo apenas reaplicado nos novos filmes.

Em “Rogue One”, a inovação começa pela construção de sua protagonista Jyn Verso (Felicity Jones), que diferente dos seus antecessores, não se sente deslocada e nem quer sair do seu lar em busca de aventuras intergalácticas. Ela é uma criança que foi privada de sua vida familiar e criada para se tornar uma sobrevivente, sendo obrigada a mudar sua vida, justamente pelos interesses do Império.

O desenvolvimento desta história se dá quando Cassian Andor (Diego Luna) e o metódico androide K-2SO (Alan Tudyk) tem a missão de resgatar Jyn, mas logo acaba jogando ela numa jornada que toma proporções maiores, indo além da busca pessoal da protagonista. No meio desta jornada são apresentados novos personagens para compor o grupo responsável pelo maior ato de esperança dos rebeldes.

A apresentação destes personagens ocorre de forma simples e funciona muito bem para um filme de equipe. Se considerar que o tempo de introdução de cada um deles é curto, correndo o risco de criar personagens rasos, o filme dá lição a outros com a mesma estrutura, como os atuais filmes de super grupos de heróis, que algumas vezes desperdiçam tempo apenas para mostrar, de forma plástica, o quanto aquele personagem é legal.

Ainda falando sobre personagens, me chamou muito a atenção a composição do elenco. As características étnicas não foram uma simples cota na tela. Ver um latino, dois orientais e um muçulmano que estão ali ajudando a protagonista é sim um elemento que contribui na construção de um conceito sobre a história.

A meu ver, é evidente a intenção de que os rebeldes são compostos pela diferença, ainda mais colocando num nível intergaláctico. A Aliança Rebelde, além dos diferentes grupos étnicos humanos, também é composta por uma gama de povos alienígenas, enquanto o império é apresentado por meio da uniformidade de suas tropas e a falta de diversidade de corpo imperial, assim como a ideologia nazista de supremacia de uma raça.

Apesar de seu discurso de resistência, uma cena que me incomodou um pouco no filme foi quando Jyn discursa sobre a importância da ação rebelde naquele momento. A cena acaba soando estranha, pois ao mesmo tempo em que ela diz que “basta não olhar para cima que não verá as bandeiras do Império”, passando ideia de que ela é uma sobrevivente alienada às questões políticas, ela se mostra politizada e entregue à causa dos rebeldes, comovendo parte do conselho com seu discurso final. É evidente a insistência em consolidar Jyn como heroína da história, parecendo até insegurança do roteiro, mas nada que comprometa toda a história.

“Rogue One”, por ser produzido pela Disney, acaba surpreendendo ao trazer um dos filmes mais politizados da franquia Star Wars. Mostrando a resistência de um grupo composto por diferenças étnicas e ideológicas, todos colocando a vida em risco por um bem maior. A liberdade da Galáxia.

Apesar da empolgação nostálgica e dos bons filmes que a franquia vem apresentando, saí do cinema um pouco pessimista ao pensar sobre produções cinematográficas. Acredito que estamos cada vez mais distantes de franquias originais, e o cinema, preso naquele período dos anos 70 e 80, incapaz de criar novas personagens e sagas tão criativas e instigantes como essas.

 

1 Mesmo depois de dois ataques o Império não se preocupou em resolver essa deficiência. Veja “O Despertar da Força” e entenderá.

Albano Pimenta