Diário MS

ALÉM DA TELA: O universo criado por M. Night Shyamalan

Albano Pimenta*

Acredito que quando assistimos a um filme, aceitamos a mentira, ou seja, aceitamos ser enganados. Até os filmes mais realistas, como um documentário tem seu teor de ficção, pois ele parte de um ponto de vista do diretor ou editor e não dos depoentes reais que conduzem a história do filme.

Jean-Luc Godard disse em uma de suas entrevistas que “Toda grande ficção tende ao documentário e todo grande documentário tende à ficção” e também disse que “O cinema é a fraude mais bonita do mundo”.

Trazer o irreal dentro de uma estética realista é uma das características mais legais do cineasta M. Night Shyamalan. Seus filmes geralmente se passam na Filadélfia com pessoas ordinárias, não no sentido pejorativo e deturpado, mas no sentido de homem comum; conforme ao costume, à ordem normal. Isso acontece em seu elogiado “O Sexto Sentido” (1999), onde o seu personagem principal é um psicólogo especialista em crianças; em “Corpo Fechado” (2000), que é um segurança; em “Sinais” (2002), um fazendeiro; em “A Vila” (2004) onde a personagem principal é filha de um professor universitário; enfim, todas as personagens são do mundo real que atinge um momento fantástico dentro da trama — ou para muitos até “mentiroso”.

Neste ano, Shyamalan lançou o filme “Fragmentado” e, em minha opinião, tem um retorno muito interessante e até saudosista, resgatando tais elementos.

Mesmo com o diretor dividindo opiniões de crítica em seus últimos trabalhos, sou um admirador e, considerando a natureza escapista de seu trabalho, acredito que ele é um dos poucos que ainda conseguem imprimir certa identidade e surpreender o grande público.

Ao contrário da maioria dos diretores hollywoodianos, ele não mimetiza características de cineastas consagrados da indústria como alguns costumam mencionar. Ele trás elementos “Hitchcockianos” como os traumas psicológicos, por exemplo, estendendo este discurso para a técnica, por meio de figurinos; direção de arte, movimentos de câmera, enquadramentos e a utilização do som, além de também construir tramas ou narrativa paralela que sempre converge em um momento ápice do filme para justificar elementos ocultos de seus protagonistas, mas que fazem todo o sentido no desfecho de suas histórias. Essas tramas são sempre retratando uma realidade mais convencional, como uma convivência familiar, ou algum incidente no passado resultando inicialmente em algo menos importante na trama, mas muito rico para seus personagens. Este recurso é utilizado por vários diretores, mas assim como Hitchcock, Spielberg é um dos diretores que ficou muito famoso por empregá-lo de forma tão orgânica e eficiente em suas produções, a ponto de ser, a meu ver, o enredo principal, diferente do material divulgado, um exemplo disso é “E.T. – O extraterrestre” (falarei sobre esse filme nas publicações futuras).

Apesar de Shyamalan ser muito comparado aos dois cineastas, até por explorar elementos muito similares aos realizadores citados, insisto em acreditar que ele não utiliza os mecanismos tão consagrados nas mãos de Hitchcock e Spielberg como forma de imitação, mas sim como elementos já estabelecidos dentro de uma ideia coletiva, e certamente como ferramentas narrativas funcionais, para criar seu próprio universo, às vezes até, subvertendo o estilo do diretor “imitado”.

Em “Fragmentado”, a história começa com três adolescentes sendo sequestradas pelo psicopata Kevin. Ele as mantém em cativeiro e ao decorrer da trama, Kevin se revela portador de 23 personalidades distintas, sendo que algumas até estão pré-dispostas a ajudar as garotas, mas outras mais violentas estão latentes e minando Kevin, na tentativa de dominar sua mente e transformá-lo em algo ainda mais perigoso.

O que na mão de um diretor poderia ser, ou uma aventura juvenil; ou um thriller psicológico, acaba que para Shyamalan o filme gera um terror multifacetado com traumas reais e incuráveis em um universo único e potencializado pelas fissuras que o diretor deixa para que possamos, como espectador, conectar-se com o fantástico tão explodo por ele.

Assim como em “Corpo Fechado”, onde parte-se do real, utilizando um homem normal (um segurança de estádio) com problemas familiares e prestes a perder tudo que mais ama — a família; para o fantástico, onde seu personagem se encontra como único sobrevivente de uma catástrofe e possível portador de habilidades que vão além de sua normalidade, o filme “Fragmentado” utiliza a mesma estrutura de construção de história, logo, sugiro que o espectador esteja aberto a esta experiência fantástica sem muitas expectativas, pois será muito prazerosa, principalmente para aqueles que já conhecem os trabalhos anteriores do diretor.

É difícil falar com mais detalhes sobre “Fragmentado” sem deixar um potencial spoiler, mas é certo dizer que para os que preferem filmes mais “realistas”, o filme pode ser um pouco frustrante, mas, com todo respeito a eles, eu defendo M. Night Shyamalan parafraseando Frederico Fellini que prefere “cinema-mentira ao cinema-verdade, pois a mentira é sempre mais interessante do que a verdade”.

ALBANO PIMENTA é graduado em Comunicação Social pelo Centro Universitário de Adamantina – UNIFAI e pós-graduado em Semiótica pela Universidade do Oeste Paulista. Trabalha como coordenador na Divisão de Audiovisual da UFGD. Dirigiu em 2015 curta-metragem “Conexões perdidas”.