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ALÉM DA TELA :“Elis” é careta

Albano Pimenta*

Andréia Horta interpreta Elias Regina, em cinebiografia repleta de “pseudo-videoclipes”

O cinema nacional atual vem se desenvolvendo tecnicamente a passos largos. Hoje não é difícil encontrar filmes tupiniquins com o mesmo padrão de produção dos filmes de ponta produzidos na Europa ou até mesmo nos Estados Unidos.

Além disso, se considerarmos que o Brasil também é rico em temas e assuntos a serem explorados, não fica difícil vislumbrar um campo fértil para os realizadores quepossibilita encontrar temas equivalentes à qualidade técnica disponível.Seja uma adaptação literária ou uma biografia de artistas consagrados; e por aqui têm muitos.

O filme “Elis”, de Hugo Prata, é um desses casos. É evidente que a intenção é explorar uma fórmula de sucesso ao abordar uma personagem consagrada e atemporal como a intérprete Elis Regina, porém até as melhores fórmulas, em mão erradas, podem resultar em algo mediano.

O filme conta a história da cantora desde o começo da sua carreira, aos 18 anos, quando ela, ao sair de Porto Alegre a pedido de uma pequena gravadora, se vê mudando para o Rio de Janeiro. A história segue até seus momentos finais.

O diretor, utilizando aquela tal fórmula para o sucesso de sua produção, já no início de sua história, onde Elis, interpretada pela atriz Andréia Horta, canta a música “Como Nossos Pais”, do compositor Belchior. A escolha fica clara se percebermos que esta música, talvez seja a mais popular na voz da artista, principalmente para o público mais jovem. Porém, a cena se torna um videoclipe sem muita função na narrativa. Acredito que a associação que o autor tenta fazer é de algo como: “Vou contar minha história agora, que tem tudo haver com esta música, ok?”.

Particularmente, acredito que utilizar uma música para prender o público é uma jogada desleal, pois você joga com o afetivo do espectador para mascarar falhas da narrativa.

Na sequência, vi o filme “Johnny & June” (2005) de James Mangold e ele utiliza o mesmo recurso de Hugo Prata. O filme inicia com o ritmo de montagem semelhante ao videoclipe, mas neste caso, ele apresenta uma carga narrativa mais poderosa. O som, sem a letra cantada, vai além da imagem tornando-se a batida do coração de Johnny Cash, que pode ser associado ao amor que ele tinha pela música, mas também a toda sua pressão (arterial) daquele momento, que depois de ver o filme completo, entendemos que esta cena inicial é decisiva na vida dele, diferente do filme de Elis que apenas utiliza para ilustrar os créditos iniciais.

Outro ponto curioso são os personagens que participaram e ainda participam da nossa cultura. Vemos desde os amores da protagonista como Ronaldo Bôscoli (Gustavo Machado) e César Camargo Mariano (Caco Ciocler) como o saudoso Lennie Dale (Júlio Andrade) e o comentarista Celso Motta (Rodrigo Pandolfo). Suas interpretações convencem, mas nada brilha, nem mesmo o trabalho de Andréia Horta que faz um esforço grande para se parecer com Elis, mas apesar da boa caracterização, não convence e soa algumas vezes caricato, assim como o Miele de Lúcio Mauro Filho, porém arrisco dizer que, devido ao grande desafio e ao roteiro engessado, acaba sendo satisfatório.

O roteiro é talvez o maior problema do filme. Arrisco dizer que, se Elis estivesse viva, julgaria muito careta e pouco ousado. O filme parece se preocupar apenas em registrar momentos profissionais da artista e se esquece de problematizar a história da personagem principal.

Outros filmes já mostraram que a vida particular de um artista é tão mais interessante que sua fama. Para citar como exemplo outros filmes posso citar “A Rede Social” (2010) que retrata o julgamento de Mark Zuckerberg. Também o ótimo “Steve Jobs” (2016), não é aquele com o Ashton Kutcher, que apesar da ótima caracterização, é semelhante ao filme “Elis”. Este de 2016 problematiza as relações de Jobs com seus próximos, sempre antes de algum momento importante de sua carreira. E pra finalizar, teve o recente “Tim Maia” (2014) que consegue equilibrar bem seus dramas pessoas e profissionais.

Em “Elis”, o momento que isso parece germinar é quando ela é obrigada a cantar em um evento militar e entra em crise com a mídia e os fãs, mas isso é pouco explorado é superado de forma muito rápida e nada traumática.

O filme também não é só feito de equívocos, tem cenas belíssimas, como a cena em que “Elis” canta Fascinação em um retorno aos palcos depois de uma crise que teve com a mídia e seu público. Ela está com um vestido claro bordado com algumas estrelas e a iluminação simulando uma constelação e ela sendo a estrela maior. É básico, mas acaba sendo bonito.

A apresentação de Lennie Dale (Júlio Andrade) no clube noturno de Bôscoli e Miele também é bem legal, quem conhece o artista sabe identificá-lo e a direção da cena transmite a energia contagiante do local.

A direção de arte do filme também tem meus parabéns ao reproduzir os períodos da história. Com carros e alguns objetos de cena que vão se modernizando conforme a protagonista vai envelhecendo na história. Não só esta área, mas boa parte técnica é digna de filmes gringos como mencionei no início.

No filme, a vida dela se resume a apresentações musicais, mimos e alguns acertos. Certamente, a Rede Globo irá parcelar este filme e transformá-lo em série, pois tem todo o formato para isso. Nem nas cenas mais dramáticas, eu como espectador fiquei envolvido emotivamente, e olha que sou emotivo até vendo propaganda de recall de marcas de automóvel, mas desta vez Hugo Prata (que também assina o roteiro), não aconteceu àquela magia, mesmo com tantas músicas de uma artista muito admirada, assim como o nosso cinema brasileiro, aqui e lá fora também.

 

NOTA: Além de “Elis”, vejam os filmes mencionados que são muito bons: “Johnny & June” (2005); “A Rede Social” (2010); “Steve Jobs” (2016) e “Tim Maia” (2014).

 

ALBANO PIMENTA é graduado em Comunicação Social pelo Centro Universitário de Adamantina – UNIFAI e pós-graduado em Semiótica pela Universidade do Oeste Paulista. Trabalha como coordenador na Divisão de Audiovisual da UFGD. Dirigiu em 2015 curta-metragem “Conexões perdidas”.