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ALÉM DA TELA: “Dunkirk” vai ganhar Oscar, mas só na parte técnica

Divulgação

Após cinco anos desde “Cavaleiro das Trevas Ressurge”, produzindo filmes de heróis do universo DC Comics para Warner Bros, Christopher Nolan volta a direção com seu filme de guerra “Dunkirk”.

O filme aborda o evento ocorrido na praia de Dunquerque na França onde tropas britânicas foram forçadas a baterem retirada diante da força nazista aliada aos soviéticos. Para todos os combatentes o massacre era iminente, logo, sob esta perspectiva o que poderia ter sido visto como um fracasso, foi revertido em glória devido uma operação de resgate elaborada e pelos discursos ufanistas de Winston Churchill que cativou os navegantes amadores ingleses, levando um grande número a atravessar o Canal da Mancha e resgatarem mais de 300 mil soldados aliados.

O filme de Nolan é um primor técnico com destaque para todo o trabalho sonoro do filme, fazendo o espectador tremer nas poltronas do cinema. É bom dizer que este filme tem que ser visto no cinema, de preferência em IMAX, que não foi o meu caso, mas confesso que fiquei imaginando a tela maior para contemplar toda a fotografia, principalmente das passagens aéreas do filme. É certo que “Hell’s Angels” (1930), de Howard Hughes, influenciou muito as cenas aéreas, deixando o clássico dos anos 80 “Top Gun” no chinelo.

Outro ponto positivo são os poucos diálogos e explicações tão marcantes no filme de Nolan. Definitivamente é um filme contemplativo, mas não se engane que seja “parado” — ele é tenso e angustiante, todas as cenas são desconfortáveis do ponto de vista de que seus personagens estão a todo momento sob ameaça.

A montagem é o ponto alto do filme, ele trabalha três tempos diferentes, assim como seu cultuado “A Origem” (2010), não vou falar mais para não estragar a experiência, mas quando termina, pelo menos aos mais entusiastas do cinema, vão perceber o cuidado do diretor na montagem e na estrutura do roteiro que ele mesmo assina.

Mas apesar de muitos pontos positivos, o filme tem suas derrapadas. Para os mais apegados aos fatos históricos é sabido que este evento foi aterrorizante, mas no filme de Nolan os soldados são todos muitos disciplinados, quase não demonstrando desespero e pânico diante da morte. Toda a praia está ordenada, com soldados em filas e silenciosos, bem diferente da cena icônica do filme “Desejo e Reparação” (2007), em que um plano sequência de quase 5 minutos mostra todo o caos no litoral, e com apenas esta cena, o diretor do filme consegue passar todo o terror da guerra.

Mas é compreensível a visão de Nolan, já que o filme soa como um material patriótico, ainda mais em se tratando da Inglaterra que sempre teve uma posição autônoma se comparada aos outros países do continente. É notório que o diretor cria o discurso de uma Inglaterra que só depende dela mesma e de seu povo, pois o povo é a Inglaterra. Isso não é dito com essas palavras no filme, mas é como um discurso subliminar que não tira o mérito técnico do diretor, mas mostra toda sua preocupação em preservar a integridade de seu país diante de um público internacional e esquece de criticar a guerra e mostrar mais sobre os damas psicológicos.

Outro ponto que me incomodou um pouco e parece uma recorrente nas produções de Nolan, foram os momentos que conduziam para uma misancene sentimental, ao estilo Spielberg, que realmente o diretor não consegue trabalhar. Algumas situações dramáticas acontecem de forma tão rápida que não dá tempo, pelo menos para mim como espectador, de sentir pena, alegria ou raiva de algum personagem. Eu compreendi que o filme fosse feito pelo ponto de vista de pessoas que não poderiam ter tempo para seus sentimentos, pois havia vidas em jogo, cada segundo era precioso, mas faltou aquele toque “spilberguiano” para eu me relacionar com os sentimentos ingleses.

Mesmo sobre poucas construções complicadas o diretor consegue extrair grandes atuações. Destaque para Tom Hardy que faz um piloto da força aérea britânica que apenas com um olho. Eu disse: UM OLHO, consegue, com sua interpretação, mostrar seu sacrifício ao espectador. Genial!

O filme de Christopher Nolan realmente é digno de Oscar para os padrões de Hollywood, mas está longe de ser o melhor filme de sua carreira. Lembro de quando estava na faculdade e uma amiga me sugeriu para que eu visse “Amnésia” (2000), achei genial, se o leitor não viu, veja, pois a estrutura narrativa de “Dunkirk” já é uma assinatura do autor desde 2000 e voltou em “A Origem” de 2010. Mesmo sendo comercial, Christopher Nolan é autoral e ainda consegue surpreender e agradar seu público no cinema.

 

ALBANO PIMENTA é graduado em Comunicação Social pelo Centro Universitário de Adamantina – UNIFAI e pós-graduado em Semiótica pela Universidade do Oeste Paulista. Trabalha como coordenador na Divisão de Audiovisual da UFGD. Dirigiu em 2015 o curta-metragem “Conexões perdidas”, e em 2017 as intervenções audiovisuais da peça teatral “Tire-me daqui”, ambas produções da Avatz!.